Blog do Dr. Alexandre Faisal

Acaso (ou má-sorte) responde por 66% das mutações associadas ao câncer

Alexandre Faisal

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Os fatores hereditários e ambientais estão no centro de muitas pesquisas em oncologia. Uma publicação na Science afirma que o impacto destes fatores é muito menor do que o esperado. Na sua opinião, qual fator é mais importante para o surgimento do câncer ? Clique aqui para votar

 

Uma publicação recente no periódico Science causou furor no meio acadêmico e deveria, se confirmadas as hipóteses dos autores, deixar todos nós, mortais, preocupados também. Os autores do artigo, renomados pesquisadores da área da genética molecular, investigaram a relação entre o número de divisões celulares de células troncos de certos tecidos ao longo da vida e as taxas de incidência de 17 tipos de câncer em 69 países. O modelo estatístico usado mostrou que havia forte correlação entre a incidência dos diversos tipos de tumores e o número estimado de divisões de células- tronco. Os resultados vão na mesma direção de publicação de 2015, na mesma Science, com dados de 31 tipos de câncer nos Estados Unidos. Na ocasião, após forte reação do meio acadêmico, os autores usaram um exemplo mais didático para explicar os resultados da pesquisa. Para eles, o número vida de divisões de células-tronco em um determinado tipo de tecido particular é análogo ao número de milhas percorridas em uma viagem de carro: quanto mais longa a viagem, maior a probabilidade do motorista sofrer um acidente fatal.

A ideia é que cada divisão de células-tronco representa um bilhete na loteria do câncer. Embora o número de mutações necessárias para o surgimento do câncer possa diferir entre tecidos, os tecidos com mais divisões celulares tendem a apresentar maiores taxas de câncer. Com base neste raciocínio, apenas um terço da variação no risco de câncer entre os tecidos é atribuível a fatores ambientais ou predisposições herdadas. A maioria, ou os demais 2/3 são devidos a ''má sorte''. Ou seja, falhas no processo de divisão celular (e/ou reparação do erro na divisão celular) que independem de fator genético ou ambiental. A implicação imediata de tal hipótese é que se dois terços dos tumores malignos surgem por acaso em decorrência de mutações somáticas acumuladas, não adianta muito investir recursos e esforços em prevenção, mas sim na busca de suas origens.

O impacto da publicação gerou críticas de outros pesquisadores que reconhecem a importância de fatores ambientais, de estilo de vida e genéticos na etiologia do câncer. E não acham que é apenas questão do acaso que aqui se traduz mais adequadamente por má-sorte. De fato, tabagismo, alcoolismo, infecções virais e algumas predisposições genético-familiares estão claramente associadas com certos tipos de câncer, em muitos estudos epidemiológicos. E nestes estudos os participantes com maior exposição aos diferentes fatores de risco eram justamente aqueles com maiores incidência de câncer. E não simplesmente os mais azarados. Até que surjam novos estudos continua de pé a recomendação: cuide-se que vale a pena. E não confie apenas na sua sorte

(Tomasetti et al., Stem cell divisions, somatic mutations, cancer etiology, and cancer prevention Science 355, 1330–1334 (2017);  Tomasetti & Vogelstein. Cancer etiology. Variation in cancer risk among tissues can be explained by the number of stem cell divisions. Science. 2015;347(6217):78–81)