Blog do Dr. Alexandre Faisal

Doença de Alzheimer afeta mais mulheres do que homens
Comentários Comente

Alexandre Faisal

 

Resultado de imagem para alzheimer

A Doença de Alzheimer mobiliza esforços de gestores e pesquisadores de países europeus.  Uma publicação do Lancet traz um panorama atual da doença que afeta mais mulheres que homens 

Você é capaz de reconhecer os sintomas iniciais da doença de Alzheimer ? Clique aqui para votar

 

        Dia 21 de setembro é o dia mundial da conscientização da doença de Alzheimer. Uma campanha de entidade científica nacional alerta para a importância da data (e da doença) usando como mote a frase: “Alzheimer: quanto antes souber, mais tempo você terá para lembrar”. Estima-se que existam no mundo cerca de 35,6 milhões de pessoas com a Doença de Alzheimer. No Brasil, há cerca de 1,2 milhão de casos, a maior parte deles ainda sem diagnóstico. Uma publicação do Lancet Neurology aborda aspectos epidemiológicos e clínicos da doença. A doença se apresenta como demência, ou perda de funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte de células cerebrais. Muitas doenças podem causar um quadro de demência (como por exemplo a demência da doença de Parkinson). Entre as várias causas conhecidas de demência, a Doença de Alzheimer é a mais freqüente.

         Os sintomas mais comuns incluem perda de memória recente, esquecimento de eventos, datas, nomes e de lugares, dificuldade para perceber uma situação de risco, para tomar decisões e para planejar atividades mais complexas. Mudanças no comportamento e na personalidade podem ocorrer. A doença é caracterizada pela piora progressiva dos sintomas, ainda que pacientes apresentem períodos de maior estabilidade. A etiologia é incerta, mas existem fatores associados: é mais comum após 65 anos, mais freqüente em mulheres (talvez pelo fato delas viveram mais que os homens) e segundo muitos estudos está relacionada ao estilo de vida. O fato é que a atividade intelectual e maior escolaridade são fatores de proteção contra o surgimento e evolução da doença. Estímulos cognitivos ao lado de sociais e físicos são opções não medicamentosas de tratamento.

         Apesar da inexistência de cura, medicamentos (anticolinérgicos) melhoram a qualidade de vida e sobrevida da doença. Os futuros avanços na compreensão das causas do Alzheimer serão fundamentais para o tratamento. Até lá os estudos indicam que o diagnóstico precoce da doença assim que surgem os sintomas iniciais, que não devem ser confundidos com sinais do envelhecimento normal, é a melhor maneira de ajudar estes pacientes. A frase “Alzheimer: quanto antes souber, mais tempo você terá para lembrar” faz todo o sentido.

(Winblad et al. Defeating Alzheimer’s disease and other dementias: a priority for European science and society; Lancet Neurol 2016; 15: 455–532)


Uso de óvulo de doadora não diminui riscos de gestante após 45 anos
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Resultado de imagem para pregnant women

 

Gestação após os 45 anos é cada vez mais comum em países desenvolvidos. Um estudo israelense avalia os riscos da gestação tardia 

Se por razões diversas você só pudesse engravidar após 45 anos de idade, você ficaria grávida ? Clique aqui para votar

           Antes uma situação inimaginável ou fortuita, a gestação após os 45 anos transforma-se, pouco a pouco, em realidade. Muitas mulheres adiam até o limite final das suas vidas reprodutivas a decisão de ter o primeiro filho. Nos EUA, no período de 1970 a 2006, a proporção de nascimento do primeiro filho entre mulheres com idade igual ou acima de 35 anos aumentou quase oito vezes. Avaliar os resultados obstétricos associados à primeira gestação após 45 anos foi o tema de publicação recente. Os pesquisadores israelenses realizaram estudo de coorte retrospectivo comparando 222 primíparas idosas, ou seja, mulheres que vão parir pela primeira vez com mais de 45 anos, com um grupo de referência de 222 primíparas, com idades entre 30 e 35 anos.

         Os resultados confirmam dados já conhecidos da literatura e não são nada animadoras para as mulheres que deixaram a gestação para mais tarde, ou melhor, para bem mais tarde. Inicialmente, as mulheres deste grupo tendiam a ter mais problemas crônicos de saúde, a apresentarem diabetes e hipertensão na gestação, a serem solteiras, e de terem engravidado por meio de doação de óvulos. Quanto às complicações na gravidez, elas foram mais sujeitas à hospitalização, a ter bebê prematuro, com baixo peso ao nascer e com maior risco de a admissão à UTI neonatal. Como exemplo, o risco de pré-eclâmpsia, uma grave complicação obstétrica, foi 2.5 vezes mais freqüente nas gestantes mais velhas. Mas o estudo mostra algumas surpresas: não houve diferenças nos resultados entre primíparas acima dos 45 anos em relação ao histórico de doenças crônicas pré-existentes e nem na comparação com gestantes acima de 50 anos. Outros estudos asseguravam melhor prognóstico para mulher mais velha, com boa condição de saúde, que deixava a gravidez para o final da vida reprodutiva. Muitas vezes contando com o óvulo de doadora. E quanto a isso outro resultado da pesquisa também é desfavorável. O uso de óvulo de outra mulher não significou menos risco para estas mulheres.

         Com resultados tão adversos, não restou aos autores outra opção a não ser alertar contra os perigos da gestação em idosas e recomendar a gestação em idades mais precoces. Só resta agora convencer algumas mulheres que querem muito ser mães, mas só depois de terminarem uma lista infindável de tarefas

(Ben-David  et al. Pregnancy and Birth Outcomes Among Primiparae at Very Advanced Maternal Age: At What Price? Matern Child Health J (2016) 20:833–842)


Reposição hormonal por via oral ou transdérmica?
Comentários Comente

Alexandre Faisal

 

Mulheres que precisam da terapia de reposição hormonal se preocupam com possíveis riscos associados ao tratamento e querem saber qual modalidade é mais segura. Um estudo francês avalia o risco de derrame (acidente vascular cerebral isquêmico) em diferentes tipos de terapia hormonal  

Você prefere que tipo de tratamento para os sintomas do climatério ? Clique aqui para votar

         O número de mulheres na menopausa que usam reposição hormonal (RH) caiu significativamente ao longo dos últimos anos. No entanto, a eficácia deste tipo de terapia é incontestável e muitas mulheres não conseguem prescindir do tratamento. Assim é muito importante saber qual modalidade de tratamento é mais indicada ou tem menos riscos, incluindo o acidente vascular cerebral (derrame). Um estudo caso-controle realizado na França procurou avaliar a relação entre o tipo de RH e acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI). Foram avaliadas todas as mulheres com idades entre 51 a 62 anos, no período de 2009 e 2011, que não apresentavam história pessoal de doença cardiovascular ou contra-indicação para a RH. Neste grupo, foram identificadas 3144 casos de derrame isquêmico que foram comparados a 12158 mulheres, da mesma idade e região, sem derrame (os chamados controles). Dentre os resultados mais importantes destaca-se o maior risco de derrame entre as usuárias de estrôgeno por via oral: um aumento de 58% no risco.  E o risco era dose-dependente, ou seja, mais reposição mais risco. Já para a via transdérmica, a associação não foi significativa.

       Outro dado interessante;  apenas um tipo específico de progesterona, a norpregnana, também aumentou o risco de AVCI. A mensagem final do artigo é que a reposição com estrógenos transdérmicos é opção mais segura para o uso de terapia hormonal de curto prazo. Segundo os autores e de acordo com estudos prévios, o uso da via transdérmica na comparação com a via oral evitaria 22 casos de derrame dentre 10 mil usuárias da reposição hormonal. Outros 30 casos de trombose também seriam evitados. Muitas mulheres podem pensar que são poucos casos, mas considerando a gravidade e o potencial dano do derrame fica claro que não é bem assim. E que existe sim uma diferença entre as opções de tratamento que precisa ser discutida e aprovada no início do tratamento. Mas eu imagino que nesta fase da vida, dificilmente as mulheres façam algum coisa sem querer: Incluindo a reposição hormonal

(Canonico et al. Postmenopausal Hormone Therapy and Risk of Stroke Impact of the Route of Estrogen Administration and Type of Progestogen Stroke  2016; 47:1734-1741).

 


Endometriose também aumenta complicações obstétricas
Comentários 1

Alexandre Faisal

 

 

Endometriose é importante causa de infertilidade feminina. Mas será que mulheres com endometriose que engravidam apresentam pior prognóstico na gravidez?. Um estudo escocês tem (algumas) respostas para esta questão      

Você sabe o que é endometriose ? Clique aqui para votar

 

         Endometriose é doença ginecológica, complexa e crônica, que afeta as mulheres em idade reprodutiva. Ela está associada com dor pélvica, infertilidade, piora na qualidade de vida e perda de produtividade. Estima-se que entre 2 e 10% da população feminina, geral, e até 40% das mulheres com queixas de infertilidade e/ou dor pélvica tenham endometriose. Mas será que as mulheres portadoras da endometriose apresentam piores resultados obstétricos caso engravidem?. Esta interessante pergunta foi o tema de uma pesquisa de base populacional, prospectiva, realizada na Escócia. Os pesquisadores usaram dados nacionais que cobriam período de 30 anos, entre 1981 a 2010. Foram comparados os resultados obstétricos de 5375 mulheres com endometriose confirmada por procedimento cirúrgico com 8710 mulheres sem endometriose que engravidaram na mesma época.

          Os resultados nada animadores mostram que a endometriose também tem repercussão negativa sobre a gestação. Diversas complicações foram mais freqüentes nestas mulheres: placenta com inserção baixa no útero, a chamada placenta prévia, aumento de hemorragias de causa indefinida e sangramento após o parto. Parto prematuro foi 26% mais comum nas gestações após endometriose. Já o risco para abortamento precoce e gravidez nas trompas se mostrou aumentado entre 80% e 170%, respectivamente, neste mesmo grupo de gestantes. Vale mencionar que o aumento relativo dos riscos na comparação entre os grupos é baseado em pequeno número de casos de complicações obstétricas, o que não invalida a associação. Outros estudos prévios realizados, em outros países, confirmam estes achados.

         A explicação para tais resultados está nas anomalias funcionais e estruturais do endométrio, local onde ocorrerá a implantação do embrião e desenvolvimento da placenta. É possível que falhas ocorram neste processo. Mas antes que as mulheres com histórico de endometriose e que planejam engravidar fiquem apreensivas cabe também destacar que os autores não sabem explicar porque outros resultados obstétricos adversos tais como distúrbios hipertensivos da gravidez, descolamento placentário e baixo peso ao nascer do bebê não foram influenciados pela endometriose. Mas convenhamos, melhor não saber explicar a ausência de complicações do que o contrário.

(Saraswat et al. Pregnancy outcomes in women with endometriosis: a national record linkage study. BJOG 2016; DOI: 10.1111/1471-0528.13920)


Terapia mente-corpo é efetiva para tratar lombalgia
Comentários Comente

Alexandre Faisal

 

O tratamento medicamentoso da lombalgia, um problema muito comum e incapacitante, apresenta limitações e efeitos colaterais. Um estudo americano avalia se a terapia mente-corpo (mindfulness theraphy) é efetiva como opção de tratamento      

Você opta (optaria) pela terapia mente-corpo para tratamento da lombalgia ? Clique aqui para votar

         Dor nas costas é um dos maiores problemas de saúde em diversos países do mundo. Ela afeta a qualidade de vida das pessoas, a produtividade e a saúde, de modo geral. Há um verdadeiro desafio entre profissionais de saúde e pesquisadores em encontrar tratamentos eficazes para a maioria das pessoas. Será que uma abordagem focada na redução do estresse pela terapia mente-corpo, a “mindfulness theraphy” é uma opção?. Nesta terapia, procura-se ajudar as pessoas a se tornarem mais conscientes de como elas se sentem emocionalmente e fisicamente. A partir desta conscientização, elas aprendem a aceitar, tolerar e lidar melhor, em vez de reagir aos problemas, de forma que eles fiquem ainda maiores. Um ensaio clínico realizado no estado de Washington avaliou 342 adultos, entre 20 e 70 anos, com dor lombar com duração mínima de 3 meses. Eles foram randomizados para três grupos de tratamento: terapia mente-corpo, terapia cognitiva comportamental e cuidados habituais. As avaliações foram feitas após 8, 26 e 52 semanas da inclusão num dos grupos.

         O resultado mais significativo mostra que a terapia de redução de estresse (mindfulness) e a terapia cognitiva tiveram melhores resultados, tanto em termos da dor quanto da capacidade de funcionar em atividades diárias. Melhor ainda, esses benefícios persistiram após um ano. Na opinião dos autores, estes tratamentos oferecem uma alternativa aos tratamentos existentes para a dor crônica nas costas. Como todos nós sabemos  e, as vezes, já vivenciamos, estes tratamentos habituais não são úteis para todos os indivíduos, são frequentemente limitados e muitos incorrem em efeitos colaterais.

        Novas investigações são propostas para avaliar eficácia após 1 ano e motivos pelos quais a “mindfulness theraphy” funciona. Os cientistas reconhecem que eles não sabem como isso ocorre e admitem que apesar de serem duas terapias distintas elas apresentam eficácias semelhantes. Quem sofre de dor nas costas deve estar se perguntando: ''who cares ?''.

(Effect of Mindfulness-Based Stress Reduction vs Cognitive Behavioral Therapy or Usual Care on Back Pain and Functional Limitations in Adults With Chronic Low Back Pain Cherkin DC, Sherman KJ, Balderson BH, et al. JAMA. 2016;315(12):1240-1249. doi:10.1001/jama.2016.2323)


Pediatras perdem oportunidade de discutir com pais a vacinação contra HPV
Comentários Comente

Alexandre Faisal

 

Muitas evidências científicas confirmam o benefício da vacinação precoce de jovens contra o HPV para prevenção de câncer de colo uterino. Um estudo americano avalia se os pediatras estão, realmente, aproveitando a oportunidade, nas consultas médicas, para propor a vacinação      

Você vacina (ou vacinaria) sua filha/filho contra o HPV? Clique aqui para votar

        O inimigo mora em casa. A frase que cairia bem num filme de terror pode ser aplicada à recomendação de alguns médicos para suas jovens pacientes ou aos pais delas. Estamos falando da desconfiança em relação à vacinação contra HPV e dos resultados de um inquérito realizado nos Estados Unidos, entre Outubro de 2013 e Janeiro de 2014, que mostra que não apenas na população em geral, mas também entre os médicos há ceticismo quanto à vacina. Pediatras e médicos de família foram questionados sobre a indicação da vacina contra HPV para prevenção do câncer de colo. Os resultados mostram que para as meninas com idades entre 11 e 12 anos de idade, cerca de 60% dos entrevistados recomendavam, fortemente, a vacinação. Os números para os meninos eram pouco menores, entre 41 e 52%. Na consulta de rotina ao redor dos 11 ou 12 anos entre 75% e 84% discutiam a questão da vacinação.

        Isso parece bom, mas se lermos os dados, por outro lado, observamos que até 25% dos médicos não tocam no assunto da imunização para HPV. E perdem uma oportunidade de atuarem em prol das suas jovens pacientes. Atualmente diversas entidades recomendam a vacina para crianças entre 11 e 12 anos, porque aceita-se que ela é mais eficaz se for dada antes do início da atividade sexual. Diversos países inclusive preconizam vacinação até 25 anos ou mais. E, de fato, tem que fazê-lo já que quase uma em cada 4 pessoas nos Estados Unidos está infectada com pelo menos um tipo do papiloma vírus humano ((HPV), sendo que mais ou menos 27000 casos de câncer são provavelmente causados pelo vírus a cada ano.

         A explicação para tal falta de informação por parte de quem deveria informar recai sobre crenças e interpretações errôneas sobre as atitudes dos pais das crianças. Eles alegam, também, como motivos para não vacinar que a criança é jovem demais e que não iniciou vida sexual, o que, de fato, são bons motivos para vacinar. Os médicos também assumem, erroneamente ou precipitadamente, que os pais não vão aceitar a vacinação dos filhos, ainda que não tenham perguntado isso diretamente para eles. A importante questão levantada pelo artigo mostra que é preciso abordar a percepção dos médicos sobre a aceitação dos pais da vacina contra o HPV. E neste caso tratar a cabeça, o preconceito, a desinformação destes profissionais. Estas jovens crianças só tem a ganhar com este tratamento dos seus pediatras.

(Allison MA, Hurley LP, Markowitz L, et al. Primary Care Physicians’ Perspectives About HPV Vaccine. Pediatrics.2016;137(2):e20152488)


Saiba como cesariana na 39a semana reduz os riscos fetais
Comentários 1

Alexandre Faisal

 

A nova resolução do Conselho Federal de Medicina sobre a realização de cesariana na 39a semana de gestação visa reduzir riscos fetais. Conheça os riscos fetais da cesariana realizada precocemente  

Você é contra ou a favor desta resolução do Conselho Federal de Medicina? Clique aqui para votar

         O Conselho Federal de Medicina  divulgou recentemente norma para a realização de cesariana com intuito de diminuir riscos fetais. A medida (2144/2016) determina que cesarianas só possam ser agendadas com 39 semanas de gestação. Até então era facultado ao médico e paciente a interrupção da gravidez em fases anteriores da gravidez, por exemplo 38 ou 37 semanas. No geral a regra foi bem aceita por médicos e gestantes ainda que isso signifique uma redução do período  para a programação do parto, com óbvias implicações para a agenda de obstetras. Eles terão que estar mais disponíveis. As próprias futuras mamães terão que se adequar já que atualmente o parto programado se transformou em ritual social, onde se mesclam uma série de fatores e eventos todos relacionados ao nascimento do bebê: a chegada dos parentes, o mapa astral do bebê, o fim de semana, etc.

        A limitação na autonomia de médicos e parturientes tem, no entanto, sua contrapartida. Cesariana com 39 semanas é muito melhor para o bebê. A cesariana mais próxima da data provável de parto (40 semanas) reduz o risco de várias complicações neonatais: icterícia, hipoglicemia, dificuldade no controle da temperatura corporal, hemorragia cerebral e dificuldades respiratórias. Para citar alguns exemplos, estudos indicam   que o risco de morbidade respiratória diminui progressivamente com o tempo de gravidez. Na comparação com bebes que nascem por meio de parto vaginal, o risco de complicações respiratórias na cesariana varia de 4 vezes na 37a  semana a 2 vezes na 39a semana. Do mesmo modo, um estudo Australiano, com análise de dados de mais de 1 milhão de nascimentos, mostra que, em gestantes de baixo risco obstétrico,  o nascimento por meio de cesariana na comparação com parto normal aumenta significativamente o risco de admissão na UTI. E quanto mais precoce a cesariana maior o risco, variando de 15 vezes na 37a semana a 5 vezes na 39a semana. Muitos estudos apontam na mesma direção. O pior que é que nem sempre isso está bem claro para as pessoas envolvidas com o parto. Mas felizmente as coisas estão mudando. E a norma do Conselho Federal de Medicina vai nesta direção. Ela coloca um pouco de ordem nesta polêmica questão e ainda por cima conscientiza as pessoas que complicações obstétricas existem. E que vale apena evitá-las.


Dengue também aumenta riscos obstétricos
Comentários Comente

Alexandre Faisal

 

 

A atenção da mídia está voltada para o impacto negativo do vírus Zika sobre as gestantes. Uma publicação no ''Lancet'' mostra que a dengue também acarreta sérias complicações obstétricas 

Você retardaria sua gravidez em função do risco destas infecções ? Clique aqui para votar

          A atenção da mídia e das gestantes, em particular, está toda voltada para o vírus Zika e a microcefalia. Neste aspecto pouco se fala da dengue. Mas pelo jeito isso vai mudar. E a dengue passará a preocupar também as gestantes. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no periódico Lancet mostra que a infecção por dengue na gestação se associa com diferentes tipos de complicações obstétricas. Os autores incluíram na análise 16 estudos de diversos tipos que abordaram o tema. 2 estudos incluídos na revisão eram brasileiros. No total foram avaliadas 6071 grávidas sendo que 292 foram expostas à dengue durante a gravidez. Vejamos quais foram as complicações. O risco de abortamento foi 3.5 vezes maior no grupo exposto à dengue. Já o risco de parto prematuro e da mulher ter bebê com peso menor do que 2.500 ao nascer foi entre 70 e 40%, respectivamente, maior nas gestantes infectadas.

          Existem explicações biológicas para estes resultados. O aumento de mediadores do processo inflamatório tais como citocinas pró-inflamatórias e interleucinas podem, por exemplo, estimular contrações uterinas levando ao parto prematuro. Por sua vez, os sintomas da doença, tal como a diminuição das plaquetas pode resultar em danos para a circulação placentária induzindo o abortamento. Finalmente, ao atingir a placenta, o vírus pode causar danos locais e levar o feto à falta de oxigênio que é causa de retardo no crescimento fetal e até de morte.

         Existe ainda uma dúvida se a infecção causa estes danos apenas nos casos sintomáticos ou também nas mulheres infectadas, mas assintomáticas. O problema é muito sério já que estima-se que anualmente 390 milhões de pessoas são infectadas com dengue e 96 milhões desenvolvem sintomas. Estudo realizado no Brasil mostra que 2.8% das gestantes tiveram episódio recente de dengue. Então não faltam motivos para se preocupar. E enquanto os gestores públicos fazem (ou não fazem) a sua parte cabe as gestantes redobrar o cuidado. E, neste caso, o ditado popular precisa ser reformulado: deu zika e deu dengue.

(Paixão et al. Dengue during pregnancy and adverse fetal outcomes: a systematic review and meta-analysis. Lancet Infect Dis 2016  March 3, 2016)


No mundo, uma em cada 4 gestantes opta pela interrupção da gravidez
Comentários Comente

Alexandre Faisal

A interrupção voluntária da gestação é sério problema de saúde pública. Uma publicação no periódico ''Lancet'' atualiza o panorama mundial das taxas de abortamento, em diferentes países e revela dados impressionantes 

Na sua opinião, qual seria o impacto de eventual legalização do abortamento no Brasil sobre as taxas de abortamento atuais? Clique aqui para votar

          Obter informações periódicas sobre taxas de abortamento induzido em nível mundial é fundamental como parte da estratégia para redução de gestação não planejada e até da mortalidade materna.  O periódico ''Lancet'', um dos mais importantes do mundo, traz dados atuais sobre o panorama mundial deste sério problema de saúde pública. As publicações anteriores ocorreram em 2003 e 2008. Os autores do artigo estimaram tendências na incidência do abortamento provocado no período de 1990 a 2014 em diversos países. Eles calcularam também a proporção de gestações que terminam em interrupção da gravidez e examinaram se estas taxas variavam em países segundo a legislação vigente. Dados de agências governamentais, de fontes internacionais e de estudos foram usados abrangendo 184 países, com representantes de todos continentes.

          O resultado mais relevante mostra que uma estimativa de 35 abortos anualmente por 1000 mulheres, com idades entre 15-44 anos, em todo o mundo, para o período de 2010-14. Isso significa uma redução de 5 pontos ou casos na comparação com o período de 1990-1994. Mas os detalhes da pesquisa é que chamam a atenção. De fato, por causa do crescimento da população, o número anual de abortos em todo o mundo aumentou entre 5 e 9 milhões  de 50.4 milhões, em 1990-1994 para 56,3 milhões, em 2010-14. Nos países desenvolvidos, a taxa de abortos diminuiu 19 pontos, indo de 46 para 27 enquanto no mundo em desenvolvimento, a redução foi bem menor: 2 pontos, passando de 39 para 37 (34 a 46). Os autores sugerem que uma em cada 4 gestações terminou com a interrupção da gravidez. Duas curiosidades: globalmente, 73% dos abortamentos ocorreram em mulheres casadas, em 2010-14, na comparação com 27% observado em mulheres solteiras. E em relação a legislação sobre direito de abortamento, não houve diferenças entre as taxas dos países que proíbem o abortamento (ou permitem apenas nos casos de risco à vida da mulher) e onde ele é permitido, quer por problemas sociais, psicológicos ou apenas pelo desejo da mulher de não ser mãe, naquele momento.

          A proposta final é garantir o acesso aos cuidados de saúde sexual e reprodutiva de milhares de mulheres, principalmente em países pobres. Mas isso inclui outra discussão muito complicada que é assegurar o acesso ao aborto seguro.

(Sedgh G, Bearak J, Singh S, et al. Abortion incidence between 1990 and 2014: global, regional, and subregional levels and trends. Lancet. 2016. DOI: 10.1016/S0140-6736(16)30380-4.)


Funcionamento cerebral das mulheres com sintomas pré-menstruais é diferente
Comentários Comente

Alexandre Faisal

 

O transtorno disfórico pré-menstrual, a forma mais grave, da síndrome pré-menstrual afeta até 5 % das mulheres. Um estudo americano avalia o controle emocional e explica se existem diferenças no funcionamento cerebral destas mulheres. 

Numa escala de 0 (nada) a 4 (muito) como você classifica a intensidade do seu mal estar no período pré-menstrual ? Clique aqui para votar

         Transtorno disfórico pré-menstrual, uma variante grave da síndrome pré-menstrual, afeta 2 a 5% das mulheres em idade reprodutiva, produzindo prejuízos na qualidade de vida comparáveis àqueles observados nas depressões mais graves. Os critérios diagnósticos deste transtorno incluem o humor deprimido, sentimentos de desesperança, ou pensamentos auto-depreciativos, acentuada ansiedade, tensão, sentimentos de estar no limite além de labilidade afetiva, raiva ou irritabilidade e diminuição do interesse em atividades usuais tais como no trabalho, escola, amigos e passatempos. Sensação de perder o controle e impulsividade entram na lista também. Daí que é muito importante caracterizar os déficits do funcionamento sócio-emocional das mulheres que sofrem de Transtorno disfórico pré-menstrual.

         Um estudo realizado na Universidade da Califórnia procurou avaliar possíveis diferenças dos padrões de controle emocional em 2 grupos de mulheres: com e sem o Transtorno disfórico pré-menstrual. Todas tinham idades entre 18 e 44 anos e responderam a diferentes questionários sobre estresse, controle emocional, conexão social e registros de humor ao longo do ciclo menstrual. Dosagens hormonais e imagens cerebrais por meio de ressonância magnética foram obtidas nos 2 grupos. Os resultados mais interessantes confirmam que mulheres com formas mais graves da tensão pré-menstrual enfrentam dificuldades para regular suas emoções, são impulsivas, tem problemas de relacionamento social e estresse auto-referido. Parte da explicação pode estar no funcionamento cerebral já que as imagens obtidas nas ressonâncias magnéticas sugerem atividade diferenciada nos 2 grupos.

         Os autores deixem os leitores em suspense quando a estes resultados que abrem a porta para futuras intervenções de estimulação cerebral. Por enquanto eles se limitam a propor estratégias de enfrentamento para melhorar o controle emocional das mulheres com TDPM e ajudar a aliviar angústia causada por esta doença. Por enquanto nada de engenhocas estimulando áreas cerebrais, mas sim terapia cognitiva e terapias mente-corpo para reequilibrar estas mulheres. Para as mulheres que já sofrem muito no período pré-menstrual e ficam loucas só de pensar em psicoterapia, resta esperar pelos próximos resultados e quem sabe por um aparelhinho milagroso que estimula o cérebro

(Petersen et al. Emotion regulation in women with premenstrual dysphoric disorder. AWMH 2016)