Blog do Dr. Alexandre Faisal

Ter propósito na vida reduz risco de morte e doença cardiovascular em 17%
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Alexandre Faisal

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Ter objetivo maior na vida faz parte do nosso bem estar psicológico e contribui para comportamentos saudáveis. Uma meta-análise avalia se ter propósito na vida reduz a mortalidade 

Você acha que ter um propósito maior na vida faz bem à sua saúde ? Clique aqui para votar

         Ter um objetivo de vida é considerado componente essencial do bem estar psicológico. Objetivo de vida não só organiza a vida da pessoa, como também a estimula na adoção de certos comportamentos e, mais ainda, proporciona um sentido ou significado para a existência. Uma vez conquistado, o indivíduo sente-se realizado e potente. No caso de falha, predomina a tensão e sensação de fracasso. Mas será que atingir metas na vida se associa com melhor estado de saúde?. Ou, mais especificamente, com menor taxa de mortalidade?. Uma meta-análise tentou responder esta questão, agrupando dados de 10 estudos observacionais prospectivos que investigaram a relação entre ter propósito maior na vida e mortalidade e presença de doença cardio-vascular. No total foram analisados dados de mais de 136 mil participantes. Os resultados não deixam dúvida: vale a pena ter uma vida digna de ser vivida, Isso é vale a pena ter um objetivo maior nesta nossa breve existência, já que isso reduziu significativamente a mortalidade por todas as causas, em 17%. A mesma redução, 17% foi observada para doenças cardio-vasculares, ao se comparar pessoas com e sem objetivo de vida.

          Estes resultados foram similares mesmo se levando em conta o país de origem estudo, os questionários utilizados para medir propósito na vida, a idade das pessoas, e se os participantes apresentavam ou não doença cardiovascular previamente. Como explicar o que parece óbvio e intuitivo?. Uma hipótese é que o propósito na vida pode ter efeito amenizador no impacto negativo de eventos estressores do cotidiano. Por exemplo, aceita-se que ele melhore a resposta imunológica. De fato, todos nós sabemos, que as respostas do indivíduo frente às situações traumáticas de vida, quer elas estimulem ou não reações biológicas, são importantes para a manutenção da saúde física e mental. Em segundo lugar, ter propósito na vida também pode exercer efeitos clínicos positivos em função da adoção de comportamentos saudáveis, tais como dieta saudável, atividade física e prevenção do abuso de substâncias, como álcool ou drogas. Estudos que abordaram o otimismo e o suporte social mostraram as mesmas associações.

          O resumo da história é que dar um sentido maior e mais digno na vida, almejando a realização de um objetivo resulta num benefício extra para a pessoa: menor chance de apresentar doença cardio-vascular ou mesmo de vir a morrer. Assim quem tem um propósito na vida está bem na fita (e na vida). Quem não tem deve ser encorajado a adotar um. Quem sabe por meio de terapia, meditação ou outro meio qualquer. Os mecanismos deste feliz associação entre objetivo de vida e saúde não estão completamente elucidados e estarão a espera de futuras pesquisas. Mas, muitos podem concordar que isso, de fato, pode ficar para depois.

(Cohen et al. Purpose in Life and Its Relationship to All-Cause Mortality and Cardiovascular Events: A Meta-Analysis. Psychosomatic Medicine, V 78 • 122-133, 2016)


Será que a crise econômica afeta a saúde da população?
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Alexandre Faisal

 

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A crise econômica Européia iniciada em 2008 se estendeu por alguns anos e afetou várias famílias. Uma revisão sistemática avaliou o real impacto desta crise sobre a saúde da população  

Você acha que uma crise econômica como a que estamos vivendo pode afetar a saúde da população ? Clique aqui para votar

 

         Em 2008, a Europa entrou numa crise financeira sem precedentes na história após uma recessão econômica global. Vários países da União Europeia enfrentaram um declínio Produto interno bruto (PIB), aumentando o endividamento, enquanto as famílias experimentaram insegurança financeira, perda de emprego, salários reduzidos. A situação agravou-se no início de 2010 e atingiu principalmente países como a Grécia, Irlanda, Portugal e Chipre.  Será que isso teve impacto na saúde das pessoas?. Uma recente publicação do British Medical Journal (BMJ) o tema. Os pesquisadores da Escola de Ciências Sociais de Londres e da Universidade de Stanford, Califórnia fizeram uma revisão sistemática de estudos afins que trataram da relação entre crise econômica no período de 2008 a 2015 e desfechos/complicações de saúde, tais como suicídio, saúde mental auto-avaliada e até mortalidade. Foram incluídos 41 estudos que deveriam obrigatoriamente avaliar o dado de saúde considerando o período entre 3 e 10 anos a partir da crise econômica.

         Vejamos os principais resultados. Embora houvesse diferenças entre países e grupos, observou-se que os suicídios aumentaram e a saúde mental se deteriorou durante a crise. Muitos destes estudos foram realizados na Espanha e Grécia, países muito afetados economicamente. Por outro lado, a crise não parece ter invertido a tendência de diminuição da mortalidade geral, que vem ocorrendo na Europa há anos. Quanto à associação entre crise e percepção da saúde, se boa ou ruim, os resultados foram contraditórios: alguns estudos sugeriam piora, enquanto outros não mostraram qualquer associação. Como curiosidade, um estudo na Islândia chegou a demonstrar aumento temporário de hipertensão em grávidas. Os autores destacam que a maioria dos estudos publicados sobre o impacto da crise econômica sobre a saúde, na Europa, apresenta limitações metodológicas e, portanto, os resultados precisam ser cautelosamente interpretados. Mas afirmam que, globalmente, a crise financeira na Europa teve efeitos heterogêneos sobre a saúde. Em particular, os homens em idade produtiva parecem ser mais gravemente afetados, considerando o aumento do suicídio e a auto-avaliação da saúde. Em termos de saúde mental, no entanto, as mulheres apresentaram resultados piores do que os homens. Um grupo particularmente atingido pela crise é o dos imigrantes ilegais, em geral desempregados e sem a proteção social do estado.

         Um das implicações da publicação é a adoção de políticas públicas de saúde que possam ser empregadas antecipadamente as crises econômicas. Ainda que os países adotem diferentes estratégias, nem sempre unânimes, para enfrentar crises, tais como corte de gastos e austeridade fiscal, o impacto negativo sobre saúde populacional deve ser mitigado.  O artigo é sobre crise Europeia, mas tem muito a ver com a realidade nacional. Como todos sabemos e lamentamos, o  Brasil está vivendo uma grave crise econômica, com milhões de pessoas desempregadas e muita insegurança quanto à retomada do crescimento. Que tal aproveitarmos as sugestões e lições de quem já passou pelo pior, mas continua brigando para sair da crise?.

(Divya Parmar,  Charitini Stavropoulou, John P A Ioannidis. Health outcomes during the 2008 financial crisis in Europe: systematic literature review. BMJ 2016;354:i4588)


Mamografia aos 50 anos será bem aceita pelas mulheres?
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Alexandre Faisal

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O Instituto Nacional do Câncer (INCA) divulgou recomendação para rastreamento do câncer de mama. A realização de mamografia a cada 2 anos entre 50 e 69 anos já era defendida por entidades internacionais. Aproveitando o Outubro Rosa, saiba um pouco sobre câncer de mama e sua (polêmica) prevenção 

Você concorda(ria) em realizar a primeira mamografia para prevenção do câncer mamário aos 50 anos ? Clique aqui para votar

         A campanha outubro rosa para prevenção e conscientização do câncer de mama já começou com o apoio do Ministério da Saúde e do Inca (Instituto Nacional do Câncer) que publicou dados recentes sobre os mais diversos tipos de câncer no Brasil, incluindo o câncer de mama. O mote da campanha é ''Câncer de mama: vamos falar sobre isso?''. Segundo o INCA, em 2016 o Brasil deve ter quase 58 mil casos novos, com risco estimado de 26 casos para cada 100 mil mulheres. Ao lado do câncer de colo uterino é o câncer mais freqüente e que mais mata no país. O câncer de mama é considerado uma doença heterogênea com relação à clínica e à morfologia, onde se reconhece mais de 20 subtipos diferentes da doença.  É um tipo de câncer considerado multifatorial, envolvendo fatores biológico-endócrinos, vida reprodutiva, comportamento e estilo de vida. Dentre os fatores associados temos principalmente a idade: as taxas de incidência aumentam rapidamente até os 50 anos. Após essa idade, o aumento ocorre de forma mais lenta. Câncer de mama observado em mulheres jovens apresenta características clínicas e epidemiológicas diversas, sendo em geral são mais agressivos. A história familiar de câncer de mama também é importante, sendo que alterações em genes, como os da família BRCA, aumentam o risco da doença. Mas vale lembrar que nove em cada dez casos de câncer de mama ocorrem em mulheres sem história familiar.
         Em relação à vida reprodutiva, nuliparidade (não ter filhos) e ter primeiro filhos após 30 anos aumentam o risco, enquanto aleitamento diminui. Além desses, consumo de álcool, excesso de peso, em particular após menopausa, sedentarismo e exposição à radiação ionizante também são considerados implicados no surgimento da doença. Admite-se que é possível evitar até 30% dos casos com alimentação saudável, prática de atividade física regular e manutenção do peso ideal. O diagnóstico precoce é fundamental para melhor sobrevida em 5 anos que passa dos 85% se o tumor for diagnosticado na fase inicial.
         A campanha destaca a importância do auto-exame das mamas como forma de conhecer o corpo identificando precocemente qualquer nódulo ou alteração. Mas o rastreamento baseia-se, de fato, na mamografia. A recomendação é de mamografia bienal para mulheres entre 50 a 69 anos. Para as mulheres consideradas de alto risco para câncer de mama (história familiar de câncer de mama na mãe e irmãs), recomenda-se o acompanhamento clínico individualizado. Uma recomendação que se baseia nos dados de muitas pesquisas, mas vai causar polêmica, antes, durante e depois do outubro rosa.
(www.inca.gov.br/bvscontrolecancer/publicacoes/edicao/Estimativa_2016.pdf)

 

 


Droga para aumentar libido feminina é questionada
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Alexandre Faisal

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A aprovação da Flibanserina, droga para aumentar a libido feminina, no ano passado, recebeu grande atenção da mídia e das mulheres. Pesquisadores holandeses publicam uma revisão sistemática que questiona o benefício da medicação

Você acha que é possível melhorar a libido feminina por meio de medicação ? Clique aqui para votar

         O lançamento e aprovação de algumas medicações para determinados problemas ou doenças causam grande expectativa nas pessoas que sofrem destas afecções. Um exemplo recente foi o lançamento, em agosto de 2015, da droga Flibanserina para o tratamento do desejo sexual hipoativo nas mulheres. Cercada de debates e cobertura da mídia, a droga tinha tudo para ser um ''must'' no tratamento da falta de libido feminino. Mas parece que não é exatamente isso que está ocorrendo. Uma revisão sistemática de estudos sobre a eficácia da droga for recentemente publicada e os resultados questionam os benefícios do tratamento. Liderada por pesquisadores holandeses a publicação agrupa dados de cinco estudos já publicados e 3 estudos não publicados, num total de 5914 mulheres e procura avaliar o número de eventos sexuais satisfatórios com e sem uso da Flibanserina, além dos eventuais efeitos adversos, tais como tonturas, sonolência, náuseas e fadiga. E aí começam as más notícias.

         A droga não se associou com melhora significativa na esfera da sexualidade e para complicar ela aumentou o risco dos diferentes efeitos colaterais. A presença de efeitos colaterais duplicou a chance da mulher para de usar a medicação. A impressão global de melhora do desejo sexual, segundo a avaliação das usuárias, variou de mínima a nula. O resultado é tão decepcionante que os autores do artigo recomendam novos estudos com inclusão de diferentes grupos populacionais, e, particularmente, a inclusão de mulheres com comorbidades, uso de medicamentos, e menopausa cirúrgica, antes da droga vir a ser recomendada rotineiramente. Pelo jeito, no caso da Flibanserina a excitação se transformou em frustração.

(Jasper et al. Efficacy and Safety of Flibanserin for the Treatment of Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Intern Med. doi: 10.1001/jamainternmed.2015.8565. February 29, 2016)


Legislação permite mistura de sêmen de casal homossexual para reprodução
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Casais homossexuais masculinos que desejam filhos podem, agora, optar por misturar o sêmen para promover o anonimato da paternidade biológica da criança. Conheça os prós e contras de tal medida

Você é a favor de casais homossexuais masculinos terem filhos por meio de reprodução assistida ? Clique aqui para votar

 

         As técnicas de reprodução assistida (RA) experimentaram enorme progresso nas últimas décadas, tornando se mais efetivas e seguras. No entanto, as mudanças de padrões de comportamento da sociedade contemporânea continuam desafiando os limites éticos destas técnicas. Uma situação recente envolve a questão da mistura de espermatozóides de parceiros homossexuais que planejam ter filhos. Este sêmen com material genético dos 2 pais seria, posteriormente, usado para fertilizar óvulos doados e gerar embriões a serem implantados em úteros de substituição. Neste caso a mistura do sêmen garantiria simbolicamente a paternidade afetiva de ambos os envolvidos. A dupla paternidade se torna, então e apenas, possível pelo sigilo da paternidade biológica.

         O procedimento que já existe e, portanto, está regulamentado em outros países, pode agora ocorrer no Brasil. É isso mesmo: parecer de número 26126/14 afirma que a paternidade afetiva deve prevalecer à biológica, o que de fato acompanha a tendência jurídica do país. Ou seja, importa mais a questão afetiva e relacional do que os determinantes genéticos. Até ai parece muito bom, mas como qualquer situação nova surgem questões que precisam ser melhor esclarecidas. De fato, isso se aplica a vários aspectos da RA que ainda estão tramitando no Congresso Nacional. Mas conhecendo nosso Legislativo, em época de crise e mesmo fora dela, imagina-se que isso pode demorar. Uma solução é adotar práticas médicas já respaldadas na lei. E uma delas reconhece o direito de casais homo-afetivos de irem família. Mas e o direito da criança de saber que me seu pai biológico?. Não saber quem é o pai pode causar danos psicológicos à criança ou adulto que tem autonomia para decidir se mantém o sigilo ou não. Aqui se avizinha um claro conflito entre o desejo paterno e eventual desejo da prole. Muitos podem questionar se realmente há sigilo da paternidade já que com o nascimento da criança determinadas características físicas (e quem sabe psíquicas) podem revelar a identidade do pai genético. Como se vê é um tema atual e polêmico.

          Mas como curiosidade vale lembrar que Elton John,  o famoso cantor pop optou pela técnica de compartilhamento de sêmen com seu parceiro para ter seu herdeiro. Perguntado sobre quem era o pai biológico, ele respondeu que “não sabia, que eram os dois”. Pelo jeito, se nós tivermos interesse na resposta, só nos resta esperar esta criança começar a compor música.


Doença de Alzheimer afeta mais mulheres do que homens
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Alexandre Faisal

 

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A Doença de Alzheimer mobiliza esforços de gestores e pesquisadores de países europeus.  Uma publicação do Lancet traz um panorama atual da doença que afeta mais mulheres que homens 

Você é capaz de reconhecer os sintomas iniciais da doença de Alzheimer ? Clique aqui para votar

 

        Dia 21 de setembro é o dia mundial da conscientização da doença de Alzheimer. Uma campanha de entidade científica nacional alerta para a importância da data (e da doença) usando como mote a frase: “Alzheimer: quanto antes souber, mais tempo você terá para lembrar”. Estima-se que existam no mundo cerca de 35,6 milhões de pessoas com a Doença de Alzheimer. No Brasil, há cerca de 1,2 milhão de casos, a maior parte deles ainda sem diagnóstico. Uma publicação do Lancet Neurology aborda aspectos epidemiológicos e clínicos da doença. A doença se apresenta como demência, ou perda de funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte de células cerebrais. Muitas doenças podem causar um quadro de demência (como por exemplo a demência da doença de Parkinson). Entre as várias causas conhecidas de demência, a Doença de Alzheimer é a mais freqüente.

         Os sintomas mais comuns incluem perda de memória recente, esquecimento de eventos, datas, nomes e de lugares, dificuldade para perceber uma situação de risco, para tomar decisões e para planejar atividades mais complexas. Mudanças no comportamento e na personalidade podem ocorrer. A doença é caracterizada pela piora progressiva dos sintomas, ainda que pacientes apresentem períodos de maior estabilidade. A etiologia é incerta, mas existem fatores associados: é mais comum após 65 anos, mais freqüente em mulheres (talvez pelo fato delas viveram mais que os homens) e segundo muitos estudos está relacionada ao estilo de vida. O fato é que a atividade intelectual e maior escolaridade são fatores de proteção contra o surgimento e evolução da doença. Estímulos cognitivos ao lado de sociais e físicos são opções não medicamentosas de tratamento.

         Apesar da inexistência de cura, medicamentos (anticolinérgicos) melhoram a qualidade de vida e sobrevida da doença. Os futuros avanços na compreensão das causas do Alzheimer serão fundamentais para o tratamento. Até lá os estudos indicam que o diagnóstico precoce da doença assim que surgem os sintomas iniciais, que não devem ser confundidos com sinais do envelhecimento normal, é a melhor maneira de ajudar estes pacientes. A frase “Alzheimer: quanto antes souber, mais tempo você terá para lembrar” faz todo o sentido.

(Winblad et al. Defeating Alzheimer’s disease and other dementias: a priority for European science and society; Lancet Neurol 2016; 15: 455–532)


Uso de óvulo de doadora não diminui riscos de gestante após 45 anos
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Alexandre Faisal

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Gestação após os 45 anos é cada vez mais comum em países desenvolvidos. Um estudo israelense avalia os riscos da gestação tardia 

Se por razões diversas você só pudesse engravidar após 45 anos de idade, você ficaria grávida ? Clique aqui para votar

           Antes uma situação inimaginável ou fortuita, a gestação após os 45 anos transforma-se, pouco a pouco, em realidade. Muitas mulheres adiam até o limite final das suas vidas reprodutivas a decisão de ter o primeiro filho. Nos EUA, no período de 1970 a 2006, a proporção de nascimento do primeiro filho entre mulheres com idade igual ou acima de 35 anos aumentou quase oito vezes. Avaliar os resultados obstétricos associados à primeira gestação após 45 anos foi o tema de publicação recente. Os pesquisadores israelenses realizaram estudo de coorte retrospectivo comparando 222 primíparas idosas, ou seja, mulheres que vão parir pela primeira vez com mais de 45 anos, com um grupo de referência de 222 primíparas, com idades entre 30 e 35 anos.

         Os resultados confirmam dados já conhecidos da literatura e não são nada animadoras para as mulheres que deixaram a gestação para mais tarde, ou melhor, para bem mais tarde. Inicialmente, as mulheres deste grupo tendiam a ter mais problemas crônicos de saúde, a apresentarem diabetes e hipertensão na gestação, a serem solteiras, e de terem engravidado por meio de doação de óvulos. Quanto às complicações na gravidez, elas foram mais sujeitas à hospitalização, a ter bebê prematuro, com baixo peso ao nascer e com maior risco de a admissão à UTI neonatal. Como exemplo, o risco de pré-eclâmpsia, uma grave complicação obstétrica, foi 2.5 vezes mais freqüente nas gestantes mais velhas. Mas o estudo mostra algumas surpresas: não houve diferenças nos resultados entre primíparas acima dos 45 anos em relação ao histórico de doenças crônicas pré-existentes e nem na comparação com gestantes acima de 50 anos. Outros estudos asseguravam melhor prognóstico para mulher mais velha, com boa condição de saúde, que deixava a gravidez para o final da vida reprodutiva. Muitas vezes contando com o óvulo de doadora. E quanto a isso outro resultado da pesquisa também é desfavorável. O uso de óvulo de outra mulher não significou menos risco para estas mulheres.

         Com resultados tão adversos, não restou aos autores outra opção a não ser alertar contra os perigos da gestação em idosas e recomendar a gestação em idades mais precoces. Só resta agora convencer algumas mulheres que querem muito ser mães, mas só depois de terminarem uma lista infindável de tarefas

(Ben-David  et al. Pregnancy and Birth Outcomes Among Primiparae at Very Advanced Maternal Age: At What Price? Matern Child Health J (2016) 20:833–842)


Reposição hormonal por via oral ou transdérmica?
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Alexandre Faisal

 

Mulheres que precisam da terapia de reposição hormonal se preocupam com possíveis riscos associados ao tratamento e querem saber qual modalidade é mais segura. Um estudo francês avalia o risco de derrame (acidente vascular cerebral isquêmico) em diferentes tipos de terapia hormonal  

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         O número de mulheres na menopausa que usam reposição hormonal (RH) caiu significativamente ao longo dos últimos anos. No entanto, a eficácia deste tipo de terapia é incontestável e muitas mulheres não conseguem prescindir do tratamento. Assim é muito importante saber qual modalidade de tratamento é mais indicada ou tem menos riscos, incluindo o acidente vascular cerebral (derrame). Um estudo caso-controle realizado na França procurou avaliar a relação entre o tipo de RH e acidente vascular cerebral isquêmico (AVCI). Foram avaliadas todas as mulheres com idades entre 51 a 62 anos, no período de 2009 e 2011, que não apresentavam história pessoal de doença cardiovascular ou contra-indicação para a RH. Neste grupo, foram identificadas 3144 casos de derrame isquêmico que foram comparados a 12158 mulheres, da mesma idade e região, sem derrame (os chamados controles). Dentre os resultados mais importantes destaca-se o maior risco de derrame entre as usuárias de estrôgeno por via oral: um aumento de 58% no risco.  E o risco era dose-dependente, ou seja, mais reposição mais risco. Já para a via transdérmica, a associação não foi significativa.

       Outro dado interessante;  apenas um tipo específico de progesterona, a norpregnana, também aumentou o risco de AVCI. A mensagem final do artigo é que a reposição com estrógenos transdérmicos é opção mais segura para o uso de terapia hormonal de curto prazo. Segundo os autores e de acordo com estudos prévios, o uso da via transdérmica na comparação com a via oral evitaria 22 casos de derrame dentre 10 mil usuárias da reposição hormonal. Outros 30 casos de trombose também seriam evitados. Muitas mulheres podem pensar que são poucos casos, mas considerando a gravidade e o potencial dano do derrame fica claro que não é bem assim. E que existe sim uma diferença entre as opções de tratamento que precisa ser discutida e aprovada no início do tratamento. Mas eu imagino que nesta fase da vida, dificilmente as mulheres façam algum coisa sem querer: Incluindo a reposição hormonal

(Canonico et al. Postmenopausal Hormone Therapy and Risk of Stroke Impact of the Route of Estrogen Administration and Type of Progestogen Stroke  2016; 47:1734-1741).

 


Endometriose também aumenta complicações obstétricas
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Alexandre Faisal

 

 

Endometriose é importante causa de infertilidade feminina. Mas será que mulheres com endometriose que engravidam apresentam pior prognóstico na gravidez?. Um estudo escocês tem (algumas) respostas para esta questão      

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         Endometriose é doença ginecológica, complexa e crônica, que afeta as mulheres em idade reprodutiva. Ela está associada com dor pélvica, infertilidade, piora na qualidade de vida e perda de produtividade. Estima-se que entre 2 e 10% da população feminina, geral, e até 40% das mulheres com queixas de infertilidade e/ou dor pélvica tenham endometriose. Mas será que as mulheres portadoras da endometriose apresentam piores resultados obstétricos caso engravidem?. Esta interessante pergunta foi o tema de uma pesquisa de base populacional, prospectiva, realizada na Escócia. Os pesquisadores usaram dados nacionais que cobriam período de 30 anos, entre 1981 a 2010. Foram comparados os resultados obstétricos de 5375 mulheres com endometriose confirmada por procedimento cirúrgico com 8710 mulheres sem endometriose que engravidaram na mesma época.

          Os resultados nada animadores mostram que a endometriose também tem repercussão negativa sobre a gestação. Diversas complicações foram mais freqüentes nestas mulheres: placenta com inserção baixa no útero, a chamada placenta prévia, aumento de hemorragias de causa indefinida e sangramento após o parto. Parto prematuro foi 26% mais comum nas gestações após endometriose. Já o risco para abortamento precoce e gravidez nas trompas se mostrou aumentado entre 80% e 170%, respectivamente, neste mesmo grupo de gestantes. Vale mencionar que o aumento relativo dos riscos na comparação entre os grupos é baseado em pequeno número de casos de complicações obstétricas, o que não invalida a associação. Outros estudos prévios realizados, em outros países, confirmam estes achados.

         A explicação para tais resultados está nas anomalias funcionais e estruturais do endométrio, local onde ocorrerá a implantação do embrião e desenvolvimento da placenta. É possível que falhas ocorram neste processo. Mas antes que as mulheres com histórico de endometriose e que planejam engravidar fiquem apreensivas cabe também destacar que os autores não sabem explicar porque outros resultados obstétricos adversos tais como distúrbios hipertensivos da gravidez, descolamento placentário e baixo peso ao nascer do bebê não foram influenciados pela endometriose. Mas convenhamos, melhor não saber explicar a ausência de complicações do que o contrário.

(Saraswat et al. Pregnancy outcomes in women with endometriosis: a national record linkage study. BJOG 2016; DOI: 10.1111/1471-0528.13920)


Terapia mente-corpo é efetiva para tratar lombalgia
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Alexandre Faisal

 

O tratamento medicamentoso da lombalgia, um problema muito comum e incapacitante, apresenta limitações e efeitos colaterais. Um estudo americano avalia se a terapia mente-corpo (mindfulness theraphy) é efetiva como opção de tratamento      

Você opta (optaria) pela terapia mente-corpo para tratamento da lombalgia ? Clique aqui para votar

         Dor nas costas é um dos maiores problemas de saúde em diversos países do mundo. Ela afeta a qualidade de vida das pessoas, a produtividade e a saúde, de modo geral. Há um verdadeiro desafio entre profissionais de saúde e pesquisadores em encontrar tratamentos eficazes para a maioria das pessoas. Será que uma abordagem focada na redução do estresse pela terapia mente-corpo, a “mindfulness theraphy” é uma opção?. Nesta terapia, procura-se ajudar as pessoas a se tornarem mais conscientes de como elas se sentem emocionalmente e fisicamente. A partir desta conscientização, elas aprendem a aceitar, tolerar e lidar melhor, em vez de reagir aos problemas, de forma que eles fiquem ainda maiores. Um ensaio clínico realizado no estado de Washington avaliou 342 adultos, entre 20 e 70 anos, com dor lombar com duração mínima de 3 meses. Eles foram randomizados para três grupos de tratamento: terapia mente-corpo, terapia cognitiva comportamental e cuidados habituais. As avaliações foram feitas após 8, 26 e 52 semanas da inclusão num dos grupos.

         O resultado mais significativo mostra que a terapia de redução de estresse (mindfulness) e a terapia cognitiva tiveram melhores resultados, tanto em termos da dor quanto da capacidade de funcionar em atividades diárias. Melhor ainda, esses benefícios persistiram após um ano. Na opinião dos autores, estes tratamentos oferecem uma alternativa aos tratamentos existentes para a dor crônica nas costas. Como todos nós sabemos  e, as vezes, já vivenciamos, estes tratamentos habituais não são úteis para todos os indivíduos, são frequentemente limitados e muitos incorrem em efeitos colaterais.

        Novas investigações são propostas para avaliar eficácia após 1 ano e motivos pelos quais a “mindfulness theraphy” funciona. Os cientistas reconhecem que eles não sabem como isso ocorre e admitem que apesar de serem duas terapias distintas elas apresentam eficácias semelhantes. Quem sofre de dor nas costas deve estar se perguntando: ''who cares ?''.

(Effect of Mindfulness-Based Stress Reduction vs Cognitive Behavioral Therapy or Usual Care on Back Pain and Functional Limitations in Adults With Chronic Low Back Pain Cherkin DC, Sherman KJ, Balderson BH, et al. JAMA. 2016;315(12):1240-1249. doi:10.1001/jama.2016.2323)