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Blog do Dr. Alexandre Faisal

Prescrição de contraceptivo pelo farmacêutico é segura?

Alexandre Faisal

25/06/2020 14h49

 

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Uma prioridade da saúde pública nos Estados Unidos é a redução das taxas de gestações não planejadas (GNP) . A taxa de gravidez não intencional nos EUA caiu nas últimas décadas, mas 45% de todas as gestações ainda não são planejadas. O cenário não é muito diferente no Brasil e em muitos outros países. A contracepção é altamente eficaz na prevenção da GNP, mas existem barreiras ao uso eficaz e consistente. Uma destas barreiras é a disponibilidade do método e o acesso facilitado à prescrição, em geral associada à consulta com profissional da saúde.  Será que a inclusão dos farmacêuticos neste rol pode ser uma estratégia eficaz para enfrentar o problema?. Nos USA, desde 2016, 11 estados incluem farmacêuticos como prescritores de contracepção hormonal. Sabe-se que a distribuição dos contraceptivos por tempo superior a 1 mês se associa com melhores taxas de continuação de contraceptivos e menos interrupções na cobertura. Pois bem, um estudo realizado por pesquisadores do Departamento de Ginecologia/Obstetrícia, da Oregon Health & Science University, em Portland procuraram comparar a quantidade de suprimento de contraceptivo hormonal prescrito por farmacêuticos ou clínicos. Uma prescrição de 6 meses de contracepção hormonal foi um dos desfechos de interesse do estudo. Para isto eles realizaram um estudo de coorte que entrevistou mulheres de 18 a 50 anos que compareceram a farmácias de 4 estados (Califórnia, Colorado, Havaí e Oregon) em busca de contracepção hormonal prescrita por um médico ou farmacêutico, no período compreendido entre 30 de janeiro e 1º de novembro de 2019.

O estudo avaliou quatrocentas e dez mulheres (idade média de 27,1 anos) que obtiveram contracepção diretamente de um farmacêutico (n = 144) ou mediante receita médica tradicional (n = 266). Vamos aos resultados. As mulheres que obtiveram contracepção de um farmacêutico eram significativamente mais jovens, tinham menos escolaridade e eram mais propensos a não ter seguro de saúde na comparação com mulheres com receita médica. A prescrição de suprimento de contraceptivos por 6 meses ou mais foi significativamente mais comum entre os farmacêuticos do que entre médicos (6,9% vs 1,5%). Mesmo controlando outras variáveis que poderiam interferir nos resultados, as mulheres atendidas pelos farmacêuticos tiveram 3.5 vezes mais chance de de receber um suprimento de contraceptivos de 6 meses ou mais na comparação com as mulheres atendidas pelos médicos. E aí vem mais uma boa surpresa:  os farmacêuticos eram tão propensos quanto os clínicos a prescrever um método somente de progestágeno para mulheres com uma potencial contraindicação ao estrogênio. Ou seja, havia cuidado por parte dos farmacêuticos com a prescrição correta dos métodos mais seguros para mulheres com uma potencial contraindicação ao estrogênio, tal como cefaleia com aura, risco para trombose, hipertensão arterial ou tabagismo após 35 anos de idade.

O estudo, no entanto, não contou com grande número de casos de contraindicação aos contraceptivos e, portanto, tem esta limitação. No geral, os resultados sugerem que a prescrição nas farmácias (considerando, é claro, a participação dos farmacêuticos) de contracepção pode estar associada a uma continuação contraceptiva melhorada, minimizando o risco de interrupções por meio do fornecimento de uma maior oferta de medicamentos. Novos estudos na área são bem-vindos, mas a recomendação é prescrições mais longas, por um profissional qualificado, médico e, como se vê, farmacêutico. Com a palavra os farmacêuticos e médicos brasileiros.

(Rodriguez   et al. Association of Pharmacist Prescription With Dispensed Duration of Hormonal Contraception. JAMA Network Open. 2020;3(5):e205252. doi:10.1001/jamanetworkopen.2020.5252)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP e pesquisador científico do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP. Formado em Psicossomática, pelo Instituto Sedes Sapientiae, publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" e é co-autor do livro "Segredos de Mulher: diálogos entre um ginecologista e um psicanalista”. Atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais e sobre saúde em empresas e eventos.

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam as mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e descontraída das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.