Blog do Dr. Alexandre Faisal

Atividade social é fator de proteção para demência?
Comentários Comente

Alexandre Faisal

 

 

Resultado de imagem para old women playing cards

Você acredita que atividades sociais são benéficas na prevenção da demência ? Clique aqui para votar

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) o número de pessoas com idade superior a 60 anos chegará a 2 bilhões de pessoas até 2050;  isso representará um quinto da população mundial. O Brasil tem agora 208 milhões de habitantes (aumento de 800 mil pessoas em relação a 2017). Nossa população está crescendo menos graças a menor taxa de fecundidade e observamos uma inédita diminuição da relação entre idosos e jovens. Em 2060 (até lá seremos 228 milhões de brasileiros), a porcentagem de idosos irá dobrar atingindo 32% da população, enquanto a porcentagem de jovens até 14 anos cairá dos atuais 21% para 15%. Uma das preocupações acerca deste fenômeno é relacionada ao declínio cognitivo associado ao envelhecimento. A piora cognitiva representa um tremendo fardo para os próprios pacientes, famílias e sociedade. A função cognitiva pode ser influenciada por vários fatores, incluindo idade, gênero, nível educacional e socio-econômico e estado civil.  Encontrar estratégias eficazes para prevenir ou retardar o comprometimento cognitivo é fundamental. Evidências demonstram que a atividade de lazer pode ter um efeito benéfico na preservação da função cognitiva. A atividade social é considerada outra forma de estilo de vida ativo, juntamente com atividades físicas e cognitivas. E diversos estudos mostram que a atividade social é benéfica para vários desfechos de saúde, incluindo estado de saúde física, estado de saúde mental e qualidade de vida. Os indivíduos podem melhorar sua autoestima, competência e obter papéis sociais significativos por meio da participação em atividades sociais .Mais ainda, ao interagir com pares, a pessoa tem ótimo estimulo intelectual, importante protetor da capacidade cognitiva.

Um estudo liderado por pesquisadores do Departamento de Psiquiatria da Guangzhou Medical University procurou explorar a relação entre atividade social e função cognitiva entre idosos chineses residentes em duas grandes cidades do sul da China. No total 557 idosos sem demência com 60 anos ou mais (média de 73 anos) foram recrutados nos centros sociais em Hong Kong e Guangzhou. Um questionário de atividades de lazer foi utilizado para medir a participação da atividade social e a função cognitiva foi examinada usando uma bateria de testes neuropsicológicos. Os resultados mostram que as atividades sociais tiveram relações significativas ainda que modestas  com os escores de alguns testes cognitivos (ex:teste de aprendizagem de lista de palavras). Alguns tipos de atividades sociais se mostraram ainda mais benéficos para a função cognitiva, incluindo assistir a uma aula de interesse, fazer curso, atividade religiosa e canto. No caso da música, é possível que cantar envolva um processo complexo (e positivo) de combinar uma seqüência de palavras e melodias em uma ordem específica. Este tipo de memorização fornece claramente estimulação cognitiva. Quanto as atividades religiosas, elas podem ser úteis para os idosos relaxarem e lidarem com os efeitos da solidão e isolamento que são tão prevalentes nesta fase da vida. O estudo apresenta algumas limitações tais como o desenho transversal e a dificuldade em separar atividade social do estímulo intelectual, importante protetor de declínio cognitivo. Mas reforça alguns achados de estudos prévios que sugerem o benefício das atividades sociais (religiosas, encontros com amigos, ingressos em clubes, encontros com parentes ou colegas de classe, trabalho voluntário e organizações políticas) para evitar a demência.

Futuros estudos devem abordar as diversas dimensões e tipos de atividade social incluindo medidas de quantidade e qualidade. Mas até lá fica a mensagem: vamos entrosando galera.

(Su et al. The relationship of individual social activity and cognitive function of community Chinese elderly: a cross-sectional study.  Neuropsychiatric Disease and Treatment 2018:14 2149–2157)


Taxa de falha de aplicativo para controle da fertilidade é de 1%
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Imagem relacionada

Você confia(ria) num aplicativo para controle dos dias férteis ? Clique aqui para votar

Usar método contraceptivo é fundamental como todas mulheres sabem. Nenhuma delas que aumentar as estatísticas de gestação não planejada que atingem 60% em diversas populações e países do mundo, incluindo o Brasil. Por outro lado, muitas mulheres querem optar por métodos mais naturais, mas lamentam o fato deles não serem eficazes. Assim a opção por abstinência nos dias férteis, a famosa ''tabelinha'', fica muito limitada. Mas este cenário tem tudo para mudar já que novas tecnologias estão sendo utilizadas para alegria das mulheres. Principalmente as mulheres conectadas. Um novo aplicativo para controle da fertilidade, denominado Natural Cycles, aprovado pelo FDA, e desenvolvido por empresa Suíça, com sede atual em Estocolmo, é a sensação do momento. O aplicativo cria algoritmo exclusivo que leva em conta a temperatura corporal da mulher, além de outros fatores, como a sobrevivência do esperma, as irregularidades do ciclo menstrual. Ele não só detecta a ovulação e as diferentes fases do seu ciclo, como também calcula previsões precisas para os próximos ciclos.E pelo jeito funciona.

Um estudo patrocinado pela empresa e com participação de pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia e Princeton, nos Estados Unidos avaliou, prospectivamente, mais de 22.785 mulheres e 224.563 ciclos menstruais, no que é considerado o maior estudo prospectivo sobre contracepção natural. As mulheres tinha em média 29 anos de idade. Os resultados mostram que a taxa de eficácia resultante para o uso perfeito é de 99% e para o uso típico é de 93%. A falha no uso perfeito ocorre pela falha do método (permitir relação em dia fértil) ou uso incorreto de outro método (com por exemplo, camisinha) num dia fértil. A falha no uso típico decorre de todas causas possíveis incluindo ter relação num dia permitido. Os resultados são excelentes quando comparados com aqueles obtidos com métodos comprovadamente eficazes, como por exemplo os métodos hormonais tipo pílula, injetável hormonal e anel vaginal. O custo do aplicativo é relativamente baixo: 50 dólares anuais, o que dá direito a um termômetro top de linha.

Antes que as mulheres decidam mudar de método, vale destacar duas advertências dos próprios criadores do aplicativo: os ciclos irregulares e a mensuração correta da temperatura que pode estar alterada diante de estado gripal. Como se vê nem tudo é perfeito, e imagino que poucas mulheres ficarão confortáveis ao explicarem um gestação não planejada como resultado de uma gripe.

(Scherwitzl et al. Perfect-use and typical-use Pearl Index of a contraceptive mobile app. Contraception 96 (2017) 420–425)


Déficit de atenção/hiperatividade afeta homens e mulheres
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Resultado de imagem para attention deficit disorder

Você sabe o que é o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ? Clique aqui para votar

O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento heterogêneo caracterizado por desatenção, hiperatividade e impulsividade, com início na infância e que pode persistir até a idade adulta. O TDAH afeta a vida profissional e social dos pacientes, incluindo maior risco de desemprego e maior uso de serviços de saúde. Pessoas com este transtorno têm maior risco de acidentes nos meios de locomoção, criminalidade, tabagismo e uso de álcool e drogas ilícitas. O TDAH coexiste com outros transtornos psiquiátricos e problemas sociais. Curiosamente, o problema tem sido mais estudado em crianças do que adultos. Pois bem, um estudo sueco procurou estimar a ocorrência de TDAH em adultos ao longo do tempo, bem como avaliar co-morbidades e uso de tratamento farmacológico. Foram usados dados de dois bancos populacionais que cobriram o período de 2006 a 2011.

Vamos aos resultados. A prevalência anual de TDAH diagnosticada  para total de 44.364 pessoas aumentou de 0,58 por 1.000 pessoas, em 2006, para 3,54 por 1.000 pessoas, em 2011. Estudos indicam que o cenário mundial é ainda pior: a prevalência mundial de TDAH em adultos é estimada entre 2% e 5% Ainda no estudo sueco, mais da metade dos pacientes apresentava co-morbidades psiquiátricas (principalmente ansiedade e depressão) e para um terço foi prescrito mais de um medicamento. Não houve diferenças na prevalência em função do sexo masculino ou feminino.

Os resultados podem ser duas interpretações. Se por um lado houve crescimento do número de casos novos de TDAH, por outro houve também maior proporção de pacientes tratados. Estudos realizados nos EUA indicam que apenas 20% dos pacientes com TDHA são diagnosticados e uma porção menor recebe tratamento medicamentoso. Cabe discutir se este tipo de tratamento tem dado conta de ajudar integralmente os portadores do transtorno. Se isso é um problema na Suécia imagine no resto do mundo.

(Polyzoi et al.  Estimated prevalence and incidence of diagnosed ADHD and health care utilization in adults in Sweden – a longitudinal population-based register study.  Neuropsychiatric Disease and Treatment, 2018)


Desrespeito ou abuso afeta 18% das mulheres no momento do parto
Comentários Comente

Alexandre Faisal

 

Resultado de imagem para obstetric violence

Você conhece casos de mulheres que se sentiram abusadas ou desrespeitadas no momento do parto? Clique aqui para votar

O parto é momento único e especial na vida da mulher, e do casal. No Brasil ocorreram algumas mudanças importantes em relação ao acesso à saúde reprodutiva e serviços de saúde infantil nas últimas décadas. Alguns índices como ter feito pelo menos uma consulta de pré-natal e ter parto hospitalar estão próximos de 100% mo pais como um todo. Infelizmente, existem diferenças regionais na qualidade do atendimento e o problema do desrespeito e abuso durante o trabalho de parto persiste. Diga-se de passagem, o problema ocorre em diversos países e incluem várias formas de maus-tratos, tais como abuso físico, psicológico ou verbal, humilhação, discriminação, negação de cuidados e implementação de procedimentos contraindicados ou impróprios.

Um estudo de base populacional conduzido por pesquisadores da Universidade de Pelotas procuraram estimar a freqüência e os fatores associados ao desrespeito e abuso durante o trabalho de parto na cidade de Pelotas no ano de 2015. Informações relacionadas ao desrespeito e abuso durante o parto foram obtidas por meio de entrevista domiciliar realizada 3 meses após o parto. Elas incluíram informações sobre abuso verbal e físico, negação de cuidados e procedimentos invasivos e/ou inapropriados. 4087 mulheres responderam as perguntas. Quanto aos resultados mais relevantes, aproximadamente 10% das mulheres relataram ter sofrido abuso verbal, 6% relataram de negação de cuidados e 6% referiram procedimentos indesejáveis ou inapropriados. Mais chocante ainda, dentre as participantes, 5% alegam ter sofrido abuso físico. No geral, ter sofrido pelo menos um tipo de desrespeito ou abuso foi relatado por 18,3% das mães e ter sofrido pelo menos dois tipos ocorreu em 5,1% dos casos.

Dentre os fatores associados ao problema, dois fatos se destacam: mulheres atendidas no setor de saúde pública e aquelas cujos partos foram por cesariana após terem passado por trabalho de parto tiveram maior risco, com aproximadamente um aumento de três e duas vezes no risco, respectivamente. Se a explicação para o maior risco de maus tratos na rede pública na comparação com rede privada pode ocorrer em função da falta de pagamento direto da parturiente para o profissional de saúde, é mais difícil explicar a questão do trabalho de parto que resulta numa cesariana e não num parto vaginal. É possível que o profissional de saúde não tenha preparo suficiente para conduzir partos vaginais. Principalmente trabalhos de partos longos, difíceis e que resultam em atos operatórios. Não seria improvável imaginar que este profissional entenda a atitude da paciente num parto deste tipo como rebelde ou desobediente. A cultura da cesariana sem indicação e do excesso de medicalização são aspectos desta autoridade médica, que não deve ser questionada, na assistência ao parto.

Os autores enfatizam que este tipo de problema, por mais anacrônico que seja, não tem solução fácil. Para erradicar este problema eles defendem que é essencial implementar políticas e ações específicas para este tipo de violência e formular leis para promover a igualdade de direitos entre mulheres e homens. Isso significa direitos econômicos das mulheres e acesso ao emprego e à educação. Acho que a grande maioria das pessoas concorda. Porque, de fato, não é justo que num momento de tamanha vulnerabilidade, como é o caso do parto, a mulher seja ameaçada e constrangida exatamente por quem deveria protegê-la.

(Mesenburg et al. Disrespect and abuse of women during the process of childbirth in the 2015 Pelotas birth cohort. Reproductive Health (2018) 15:54)


Reposição hormonal oral aumenta risco de tromboembolismo em até 190%
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Resultado de imagem para hormone replacement therapy

Você usa(ria) a reposição hormonal para tratamento das queixas do climatério? Clique aqui para votar

A terapia hormonal (TH) é o tratamento mais eficaz para aliviar sintomas climatéricos, que afetam até 75% das mulheres na menopausa. No entanto, os resultados de um grande estudo publicado em 2002,  o Women's Health Initiative (WHI), levantaram preocupações sobre o risco de doença cardiovascular e tromboembolismo venoso (TEV) nas mulheres que usavam uma combinação de hormônios estrógeno e progesterona. Desde então estudos diversos tem apresentado dados conflitantes quanto ao risco de diferentes formulações de reposição hormonal.  No geral há indicações de que a via transdérmica é mais segura do que a via oral. Pois bem, a dúvida está um pouco mais distante já que pesquisadores brasileiros do  Hospital de Clínicas de Porto Alegre realizaram meta-análise com 22 estudos afins. A publicação teve como objetivo investigar o risco de eventos tromboembólicos em mulheres, na pós-menopausa, usando estrogênio não oral em comparação com mulheres que usam estrogênio oral, bem como com mulheres que receberam placebo ou não eram usuários de terapia hormonal. Adicionalmente eles avaliaram o impacto trombótico do uso do estrogênio, isolado ou associado à progesterona. Importante, mulheres que já haviam tido um episódio de tromboembolismo prévio ao tratamento hormonal foram excluídas.

O resultado mais importantes mostra que houve aumento do risco de TEV apenas nas usuárias de TH oral, independentemente do estrogênio ter ser administrado na forma isolada ou associado com a progesterona. O aumento do risco variou entre 47 e 190%. A boa notícia é que a reposição hormonal não se associou com a via transdérmica. Ou seja, mulheres que usaram TH transdérmica apresentaram risco similar de eventos de TEV em comparação a não usuárias de TH.   O impacto negativo da TH oral pode estar relacionado ao aumento dos níveis de triglicérides, diminuição do tamanho das partículas de lipoproteínas de baixa densidade, a produção de alguns fatores de coagulação e proteína C-reativa. Os autores destacam algumas limitações da publicação incluindo a falta de controle de fatores de risco para TEV tais como tabagismo, a idade e obesidade, nos poucos estudos incluídos.

Assim eles recomendam prudência com os resultados que tem óbvias implicações para a prática clínica. Cabe também mencionar que TEV ocorre em cerca de  1 pessoa a cada 1000 indivíduos na população geral e não é assim um evento tão comum. Mas claro que riscos adicionais decorrentes do uso de reposição hormonal precisam ser elucidados. As mulheres sintomáticas menopausadas vivem com frequência este dilema entre repôr ou não hormônios, que no fundo é um delicado equilíbrio entre riscos e benefícios. Muitas consideram que, mais do que usar hormônios, viver é também perigoso.

(Rovinski et al. Risk of venous thromboembolism events in postmenopausal women using oral versus non-oral hormone therapy: A systematic review and meta-analysis. Thrombosis Research 168 (2018) 83–95)


9% das mulheres americanas sofrem de depressão mas poucas são tratadas
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Resultado de imagem para women's depression

Você sabe quais são os principais sintomas de depressão? Clique aqui para votar

A depressão é grave problema de saúde pública que afeta a vida de muitas pessoas, de diversas maneiras. Co-morbidades, perda de dias de trabalho, isolamento social e até risco de suicídio. No caso das mulheres há forte ainda risco adicional de depressão na gravidez, com diferentes impactos negativos na gestação ou na construção do vínculo com o bebê. Muitas mulheres que sofrem de depressão na gravidez já apresentavam os sintomas antes da gestação. Um estudo americano procurou estimar a prevalência e os preditores de depressão, nas suas formas mais e menos graves, bem como o uso de antidepressivos, em mulheres não grávidas em idade fértil. Os pesquisadores da Universidade de Stanford, na Califórnia, usaram dados de pesquisa de base populacional, ''National Health and Nutrition Examination Surveys'', de 2007 a 2014. Nesta publicação foram analisados dados de 3.705 mulheres.

As prevalências de depressão maior e menor foram respectivamente 4,8% e 4,3%. Em relação ao uso de medicamentos antidepressivos apenas 1/3 das mulheres com depressão maior estava usando. E este número era ainda menor para casos de depressão menor: 20,0%, ou seja, uma mulher em cada 5. Os fatores mais fortemente associados à depressão maior foram ter assistência pública de saúde, ser hipertensa e menor escolaridade. A mensagem mais relevante é que muitas mulheres em idade fértil que apresentam depressão (e provavelmente outros transtornos do humor) ficam sem tratamento medicamentoso, que tem comprovada eficácia.  E acabam por perpetuar ciclo vicioso em que o sofrimento psíquico impede o tratamento que, por sua vez, contribui negativamente para a evolução do quadro.

Uma das propostas de muitas forças tarefas em saúde é rastrear ,por meio de questionários ou perguntas diretas, o estado de humor da mulher. Imagina-se que esta investigação, mesmo na ausência de queixas ou sintomas relatados, possa contribuir para a redução do problema. Esta proposta se aplica as mulheres em idade fértil e também as gestantes. Isso sim seria um motivo de comemoração.

(Guo et al. Prevalence of Depression Among Women of Reproductive Age in the United States. Obstet Gynecol 2018;131:671–9)


Resultados positivos (e negativos) da gravidez após cirurgia bariátrica
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Imagem relacionada

 

Você faria uma cirurgia bariátrica, no caso de obesidade mórbida, pensando numa futura gravidez? Clique aqui para votar

A obesidade é considerada atualmente, a doença que mais cresce em todo o mundo. Segundo projeção da OMS (Organização Mundial da Saúde) em 2025 seremos 2,3 bilhões de pessoas com excesso de peso, sendo que cerca de 700 milhões serão portadores de obesidade mórbida, a forma mais grave da doença. A mesma OMS estima que 2.8 milhões de pessoas morram todo ano no mundo por doenças relacionadas à obesidade. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que 53,9% dos brasileiros apresentam sobrepeso e obesidade (há 10 anos a taxa era de 43,3%). Uma parcela da população afetada por esta epidemia é a de gestantes. Neste caso o impacto negativo da obesidade se estende aos resultados obstétricos e perinatais. Desde 1991 reconhece-se a efetividade da cirurgia bariátrica para tratamento da obesidade mórbida. Inclusive para mulheres que planejam engravidar. Pois bem um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Toronto no Canadá realizaram uma metanálise para  avaliar os benefícios e riscos da cirurgia bariátrica considerando diversos resultados obstétricos e neonatais. Foram incluídos 20 estudos de coorte que contabilizaram aproximadamente 2,8 milhões de pessoas das quais 8.364 haviam sido submetida à cirurgia bariátrica.

Vamos aos resultados. As mulheres submetidas à cirurgia bariátrica apresentaram menores taxas de diabetes mellitus gestacional, bebês grandes para a idade gestacional, hipertensão gestacional, de todos os tipos de distúrbios hipertensivos, hemorragia pós-parto e taxas de parto por cesariana. Nestes casos o número de mulheres que teriam que ser submetidas à cirurgia para ter um destes benefícios variou de 5 a 21, o que é muito bom. No revela o estudo algumas surpresas. Os resultados negativos incluíram aumento em crianças pequenas para a idade gestacional, restrição de crescimento intra-uterino, e partos pré-termo. Neste caso para cada 35 mulheres submetidas á bariátrica uma teria parto prematuro. A explicação para crianças com menor peso e crescimento intra-uterino pode estar nos déficits de micronutrientes, uma complicação frequente da cirurgia.  As deficiências nutricionais comuns após a cirurgia bariátrica incluem proteínas, vitaminas do complexo B, vitaminas lipossolúveis, ácidos graxos essenciais e minerais (zinco e cobre), que podem persistir durante toda a gravidez. Vale destacar que as mulheres operadas foram comparadas com mulheres do grupo controle (ou seja, as não operadas) que apresentavam índice de massa corporal pré-operatório similar. A ideia neste pareamento foi avaliar o impacto positivo ou negativo da cirurgia bariátrica e não apenas da perda de peso subsequente.

No geral, a proposta dos autores é informar as futuras mamães que planejam ser operadas sobre as vantagens e desvantagens da cirurgia bariátrica. Novos estudos podem revelar novas verdades, mas o diálogo franco médico-paciente é eterno.

(Kwong et al. Maternal and neonatal outcomes after bariatric surgery; a systematic review and meta-analysis: do the benefits outweigh the risks?. American Journal of Obstetrics & Gynecology June 2018)

 


81% das jovens em São Paulo usam algum método contraceptivo
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Resultado de imagem para teens

 

Qual é a principal causa para o uso da ''pílula do dia seguinte'' entre jovens? Clique aqui para votar

Nas últimas décadas houve grande avanço no acesso aos contraceptivos. Diferentes campanhas e políticas públicas nacionais procurar incrementar a conscientização da importância e uso dos métodos. Será que isso resultou, de fato, numa mudança dos padrões de uso de contraceptivos entre as jovens adolescentes?. Dados de um inquérito domiciliar em mulheres com 15 a 19 anos, residentes no Município de São Paulo, em 2015, nos ajudam a compreender esta eventual mudança. Foram entrevistadas 633 jovens, das quais, 310 (48,5%) haviam iniciado atividade sexual. Os autores objetivaram identificar a prevalência da anticoncepção, os contraceptivos adotados, suas fontes de obtenção e os diferenciais no uso da contracepção. Vamos aos resultados.

A primeira e boá notícia é que a 81% das participantes usavam algum tipo de contracepção sendo que camisinha masculina e a pílula (28,2% e 23%, respectivamente) foram os métodos mais usados.  A chance de estar usando contraceptivo foi maior entre as que realizaram consulta ginecológica no último ano e foi inversamente proporcional ao número de parceiros na vida. Isso mesmo: quanto menos parceiros a jovem teve ao longo da vida mais freqüente foi o uso de contracepção. Menos de 3% das jovens não praticaram algum tipo de anticoncepção por não ter obtido um método, sugerindo que o “não uso” não se limita a dificuldades de acesso, mas, eventualmente, a fatores culturais e comportamentais.

Outro dado impactante. Dentre as jovens com vida sexual, 60% relataram uso de contracepção de emergência pelo menos uma vez na vida. Esse uso foi diretamente proporcional à idade da jovem e ao número de parceiros na vida. Sugerindo que com o passar dos anos, a situação de coito desprotegido e com maior risco de gestação não foi episódio isolado, mas sim se repetiu algumas vezes. Os principais motivos para o uso desse tipo de contraceptivo foram: estar sem camisinha no momento da relação (30,4%), não confiar na contracepção em uso (16,6%), ter tido relação sem estar esperando ou preparada (16,3%), a camisinha ter estourado, furado ou ficado retida (16%) e ter usado a anticoncepção de rotina de maneira inadequada (9%). Vale lembrar que a introdução da “pílula do dia seguinte” no sistema público brasileiro é relativamente recente e sofreu resistência de instituições religiosas e de grupos políticos conservadores. A aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em 1999 foi marco decisivo, mas apenas após 2004 a distribuição foi ampliada para a rede pública dos municípios. Isso, no entanto, não afasta os problemas de acesso a este tipo de método, que deve ser usado obrigatoriamente nos primeiros 3 a 5 dias após a relação sexual desprotegida. Quanto mais atrasado for seu uso menor sua eficácia. Como se vê, quanto ao uso de contracepção pelas jovens brasileiras as notícias são boas, mas podem melhorar principalmente se nosso sistema público de saúde permitir.

(Olsen et al. Práticas contraceptivas de mulheres jovens: inquérito domiciliar no Município de São Paulo, Brasil. Cad. Saúde Pública 2018; 34(2))


Exercício e perda de peso protegem a mulher da incontinência urinária
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Resultado de imagem para female urinary incontinence

Na sua opinião, qual é o fator de risco mais importante para a Incontinência Urinária ? Clique aqui para votar

A incontinência urinária (IU), a perda involuntária de urina ao esforço, é um problema de saúde comum entre as mulheres que interfere com a qualidade de vida e leva a mulher ao isolamento social. Estudos indicam que até 40% das mulheres apresentam algum grau de IU. Mas a evolução da doença ao longo dos anos é incerta, já que mulheres relatam tanto piora quanto melhora desta inconveniente condição. Este incerteza sobre a história natural da doença e até sobre seus fatores de pesquisa motivou pesquisadores dos Estados Unidos a investigarem a questão. Eles publicaram, no ''American Journal of Obstetrics and Gynecology''  um estudo com dados de duas coortes americanas, Nurses Health Study 1 e 2, com grande número de participantes. Foram seguidas 9376 mulheres do Nurses Health Study 1, com idades entre 56 a 81 anos, e 7491 mulheres do Nurses' Health Study II, com idades entre 39 a  56 anos, ambas no início do estudo. A definição da IU foi feita por meio de questionário levando em conta a frequência e gravidade da queixa. As mulheres de meia-idade e idosas tiveram seus dados pessoais coletados e responderam às avaliações periódicas sobre a persistência, progressão, remissão ou  melhora dos sintomas urinários ao longo de 10 anos.

Quanto aos resultados, houve pequena diferença entre o grupo de mulheres mais jovens e mais velhas quanto à gravidade da IU: ao redor de 37% forma classificadas como quadro leve e cerca de 19% apresentavam incontinência urinária grave logo no início do seguimento. A má notícia é que a maioria das mulheres relatou persistência ou progressão dos sintomas durante o acompanhamento. Uma fração menor, entre 3 e 11% relatou remissão da perda urinária. E isso foi mais comum entre as mulheres mais jovens e mulheres com incontinência urinária menos grave no início do estudo. Por outro lado, o envelhecimento dobrava o risco de IU. Muitas pessoas podem alegar que contra o envelhecimento não há remédio, mas o estudo traz dados novos e interessantes.  Entre todas as mulheres participantes, o índice de massa corporal mais alto se associou fortemente com a progressão da doença. Para dar um exemplo, o risco de sofrer com perdas urinárias da mulher com sobrepeso era de 2 a quase 3 vezes maior, na comparação com mulher na faixa ideal de peso. Além disso, a realização de atividade física também se associou com melhor evolução do problema. Fazer atividades físicas reduzia o risco de IU, em 32%, nas mulheres mais velhas e mostrou tendência de benefício nas mais jovens. Vale destacar que o maior número de partos e o tabagismo também se associaram negativamente com a queixa urinária. Um dos grandes méritos da publicação é o longo tempo de seguimento. Isso sem contar suas implicações para os cuidados de saúde da mulher na meia idade ou idosa.

A mensagem final é que se para alguns fatores não há solução, como é o caso do envelhecimento, para outros, é o contrário. Há boas recomendações. Parar de fumar, perder peso e se exercitar podem, de fato, ajudar a mulher a ficar livre da incômoda situação que é a perda involuntária de urina. É o tipo da orientação multiuso já que serve para a perda urinária, mas serve também para muitas outras formas de prevenção de doenças.

(Hagan et al. A prospective study of the natural history of urinary incontinence in women. Am J Obstet Gynecol. 2018 May;218(5):502.e1-502.e8. doi: 10.1016/j.ajog.2018.01.045)


66% das mulheres com endometriose profunda apresentam queixas sexuais
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Resultado de imagem para endometriosis women

 

Você sabe o que é endometriose profunda ? Clique aqui para votar

         A endometriose é caracterizada pela presença de endométrio localizado fora da cavidade uterina, mais freqüentemente no peritônio pélvico  e nos ovários, mas também na bexiga e intestino. Em alguns casos de endometriose, a infiltração do tecido acometido, como por exemplo, no intestino, é profunda, contribuindo para  o pior prognóstico. Admite-se que a causa da doença seja uma combinação de fluxo menstrual retrógrado com fatores genéticos, hormonais e imunológicos. Cerca de 10 a 20% das mulheres em idade reprodutiva sofrem com o problema. Nos casos de infertilidade e dor pélvica a estimativa para a prevalência é de 50%.  A qualidade de vida das pacientes com endometriose, sendo que dos na relação é comum. Não raros as mulheres perdem o prazer e reduzem a atividade sexual por conta da dor.

         Um estudo brasileiro procurou avaliar a relação entre gravidade da endometriose e qualidade da vida sexual e dor, em  67 pacientes com endometriose profunda presuntiva ou diagnosticada, atendidas em hospital público de São Paulo, antes do início do tratamento. Um questionário validado no Brasil avaliou diferentes dimensões da função sexual. A idade média das mulheres era 39 anos, sendo que 94% delas dor durante as menstruações e 71% referiam dor durante a relação sexual. O resultado mais importante mostra associação entre disfunção sexual e endometriose profunda. Duas em cada três mulheres com a forma mais grave de endometriose apresentavam também disfunção sexual. Em particular as mulheres com endometriose de reto e sigmoide tinham mais queixas sexuais. Os resultados não surpreendem já que a associação entre endometriose e dor durante sexual e disfunção sexual já é bem estabelecida.  

         De fato, a vivência de dor durante a prática sexual tem impacto muito negativo sobre a própria percepção da mulher, que antecipa frustração, falta de prazer  e mais dor nas futuras relações. Este ciclo vicioso não só afeta a vida sexual da mulher, mas também causa sofrimento, angústia e dificuldades interpessoais. Muitas relações podem não durar num cenário tão adverso.

(Lima et al. Função sexual feminina em mulheres com suspeita de endometriose infiltrativa profunda. Rev Bras Ginecol Obstet 2018;40:115–120)