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Blog do Dr. Alexandre Faisal

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A ciência precisa realmente da filosofia ?

Alexandre Faisal

2019-06-20T19:09:58

19/06/2019 09h58

 

         O tema é atualíssimo e ocupou manchetes de jornal, páginas da web e até as ruas. O financiamento da pesquisa em filosofia tem sido debatido por partidários de visões antagônicas. Aqueles que defendem a importância da filosofia na formação de qualquer profissional e aqueles que a consideram um desperdício de tempo e dinheiro. Um editorial publicado no periódico PNAS defende os primeiros e propõe uma interação entre ciência e filosofia que pode ser útil para os dois lados. Principalmente para os cientistas. Para justificar esta posição os autores de diversos países, liderados por um professor da Universidade de Sorbonne em Paris,  recorrem a exemplos recentes e destacam que onde filosofia já exerceu uma influência positiva na ciência. No campo da conceituação, a filosofia oferece esclarecimento conceitual que não só melhoram a precisão e utilidade de termos científicos, como também levam a novas investigações. A pesquisa com células tronco, o desenvolvimento de drogas anticancerígenas e estudo dos organoide, uma massa artificial de células ou tecido que se assemelha a um órgão, são exemplos de ciência que necessita de definições. A filosofia pode também contribuir para a crítica dos pressupostos científicos e ativamente auxiliar na  formulação de novas teorias preditivas que ajudam a estabelecer novos caminhos para a pesquisa empírica. Como exemplos temos a teoria da descontinuidade que propões que o sistema imunológico responde a súbita modificações de antigênicos e esclarece muitos aspectos dos fenômenos imunológicos, incluindo a doença auto-imune e imunidade aos tumores.

         A crítica filosófica contribuiu para a noção de que todo organismo não é geneticamente homogêneo, mas sim uma comunidade simbiótica que abriga e tolera múltiplos elementos estrangeiros (incluindo bactérias e vírus), que são reconhecidos mas não eliminados pelo sistema imunológico. Um terceiro exemplo vem da área da neurociência e estudos sobre cognição. Filósofos formularam teorias e experimentos que ajudaram desenvolvimento de programas de pesquisa específicos: do behaviorismo ao cognitivismo e ciência da computação. A engenharia da inteligência artificial, a construção de teorias psicológicas e o uso de ferramentas neurocientíficas para investigar a consciência e a emoção exigem as ferramentas conceituais para a autocrítica e o diálogo interdisciplinar, precisamente as ferramentas que a filosofia pode fornecer. Na física um exemplo é o conceito de tempo trabalhado por muitos filósofos.

          Para os autores filosofia e ciência são um contínuo. Filosofia e ciência compartilham as ferramentas da lógica, análise conceitual e argumentação rigorosa. Se por um lado, filósofos usam essas ferramentas com diferentes graus de meticulosidade e abstração, algo pouco prático para os cientistas, estes podem se beneficiar da parceria. Filósofos com o conhecimento científico relevante pode então contribuir significativamente para o avanço da ciência em todos os níveis Mas como, na prática, podemos facilitar a cooperação entre pesquisadores e filósofos?. Tarefa nada fácil já que muitos filósofos e cientistas rejeitam-se mutuamente. Mas segundo os autores o caminho passa pela inclusão da filosofia (e possivelmente outras disciplinas da área de humanas) nos experimentos, congressos, academia e nos periódicos científicos. Isso acrescentaria à ciência uma vitalidade inédita e profícua. Eles terminam citando um autor, Carl Woese, que genialmente afirma "que uma sociedade que permita que ciência mude o mundo sem entendê-lo é um perigo para si mesma".  A ver. 

(Laplane et al. Why science needs philosophyPNAS 2019, 116(10):39483952) 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP e pesquisador científico do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP. Formado em Psicossomática, pelo Instituto Sedes Sapientiae, publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" e é co-autor do livro "Segredos de Mulher: diálogos entre um ginecologista e um psicanalista”. Atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais e sobre saúde em empresas e eventos.

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam as mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e descontraída das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.