Blog do Dr. Alexandre Faisal

Câncer de colo uterino será raridade na Austrália em 20 anos
Comentários Comente

Alexandre Faisal

 

 

Resultado de imagem para hPV vaccination

 

Pense num país na liderança da prevenção do câncer de colo uterino. Se a resposta é a Austrália você acertou. A explicação está numa recente publicação do periódico Lancet, que contou com a participação de pesquisadores de várias universidades locais: Brisbane, Sidney e Melbourne. Antes vale lembrar que a ONU declarou em maio de 2018 que uma ação coordenada globalmente deveria eliminar o câncer do colo do útero. A Austrália deve chegar lá em breve. Em 2007, o país foi um dos primeiros países a introduzir um programa nacional de vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) e, desde então, alcançou uma alta cobertura vacinal em ambos os sexos, superior a 83%. Atualmente, a vacina cobre 9 tipos de vírus, em oposição à vacina anterior que cobria 4 tipos, sendo potencialmente mais efetiva na prevenção do câncer de colo uterino. Em dezembro de 2017, o rastreamento (ou seja, detecção do câncer em mulheres assintomáticas) cervical passou de triagem baseada em citologia (o conhecido teste de Papanicolau), a cada dois anos, para mulheres de 18 a 69 anos, para pesquisa do próprio HPV, a cada cinco anos, para mulheres de 25 a 69 anos.

Os autores do estudo utilizaram estes dados, além dos conhecimentos sobre a história natural da doença (o período provável entre a infecção pelo HPV e o surgimento do câncer) para compor modelo matemático. O objetivo foi identificar em que momento, ou seja, quando, a incidência anual padronizada do câncer do colo do útero na Austrália poderia ser ainda menor que os atuais 7 casos por 100.000 mulheres. Mais especificamente, uma incidência menor do que 6, 4 ou mesmo 1 novo caso por 100.000 mulheres. A pesquisa sugere que isso ocorrerá, respectivamente, até os anos 2022, 2035 e 2077. Por se tratar de um modelo há variações nas estimativas e precondições para o cálculo, tais como manutenção da cobertura vacinal em meninas e meninos.

De modo resumido, pode-se esperar que em 20 anos a Austrália elimine o câncer do colo do útero como problema de saúde pública. As mortes por este tipo de câncer serão coisa do passado. Neste momento, até os exames preventivos poderão se tornar desnecessários. Neste cenário, a preocupação das políticas públicas mudará de foco e recairá sobre as estratégias efetivas de comunicação, com os jovens, para manter altas taxas de cobertura da vacina contra o HPV. Um benefício, que vale destacar, protege até quem não se vacinou já que eliminação do vírus nos vacinados evita sua propagação por meio do ato sexual para os não vacinados. Viva a Austrália.

(Hall et al. The projected timeframe until cervical cancer elimination in Australia: a modelling study. Lancet Public Health 2018)


Mutilação genital feminina ainda assombra jovens vulneráveis
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Image result for female genital mutilations

Globalmente, três milhões de jovens correm risco de mutilação genital feminina e estima-se que 200 milhões de raparigas e mulheres no mundo tenham sido submetidas a mutilação genital feminina. Nos 28 países da África e do Oriente Médio para os quais existem dados disponíveis,  A prevalência nacional entre mulheres com 15 anos ou mais de idade varia de 0,6% (Uganda, 2006) para 97,9% (Somália, 2006). A prática inclui remoção total ou parcial do clítoris mas pode ser também estreitamento da vagina As consequências variam dos riscos imediatos de infecção, hemorragia, e morte até riscos tardios como, necessidade de cirurgia reparadora, problemas urinários e menstruais, relações sexuais dolorosas e má qualidade de vida sexual.  Também são frequentes a infertilidade, diversos tipos de infecções (por exemplo, abcessos e úlceras genitais, infecções pélvicas crônicas, infecções do trato urinário)  além obviamente das muitas consequências psicológicas, como medo da relação sexual, transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade, depressão. O impacto é tamanho que muitas mulheres jamais retomam a vida normalmente. O procedimento é realizado por motivos culturais para atender normas vigentes de comportamento, principalmente no âmbito sexual. No fundo, a prática objetiva controlar e diminuir a mulher na sua relação com o homem e com a própria sociedade. A mutilação genital feminina atinge mais mulheres jovens de 15 a 24, pobres, pouca escolaridade, muçulmanas, casadas e sem acesso à mídia.  A Organização Mundial de Saúde ressalta a importância de trabalhar com as comunidades, não apenas no curto prazo, mas também a longo prazo, realizando  investimentos nos direitos humanos, conforme entendido no contexto local. Só assim eles imaginam ser possível obter mudança coletiva que leve ao fima desta prática tão primitiva e desumana.


Adolescente aos 25 anos de idade?
Comentários 1

Alexandre Faisal

Image result for adolescents

 

Você concorda que a adolescência deveria durar até os 25 anos de idade? Clique aqui para votar

Uma proposta recente de pesquisadores americanos e australianos tem tudo para agradar os jovens no mundo inteiro: estender o período da adolescência para até 25 anos. Contestando assim a própria definição de adolescência da Organização Mundial de Saúde que considera esta fase da vida com período de mudanças biopsicosociais que vão dos 10 aos 19 anos de idade. Mas vale lembrar que a definição é de 1965 e de lá para cá as coisas mudaram bastante. Mudaram do ponto de vista biológico já que a puberdade que marca esta transição entre infância e início da adolescência está começando cada vez mais cedo. Nas meninas isso é muito evidente vez que a menarca, ou a primeira menstruação, que ocorria ao redor dos 14/15 anos há 50 anos, hoje acontece por volta dos 11 ou 12 anos na maioria dos países. A nutrição das meninas é uma das explicações para este fenômeno.

Do outro lado deste espectro, o final da adolescência é tipicamente um fato psicosocial, com a entrada do jovem no mercado de trabalho, estabelecimento de relações sociais e amorosas e assunção de diferentes competências. Mas ao contrário de décadas passadas, os jovens estão ficando muitos mais anos na escola, especializando-se e contando para isso com a ajuda dos pais. Em particular com ajuda econômica. Casamento então nem se fale. A idade média das mulheres no primeiro casamento aumentou em dois anos globalmente nas últimas duas décadas. No Brasil, a idade média aumentou em 6 anos, para 27 anos, e em vários países europeus a idade está subindo acima dos 30 anos. O outro fato que ajuda a defender um período tão longo para a adolescência, como jamais visto na história da humanidade, é a melhor compreensão de mudanças anatômicas e funcionais dos cérebros dos jovens: mudanças na forma das sinapses, nos mecanismos de neurotransmissão, crescimento de redes neuronais e aumento da conectividade funcional entre as regiões corticais implicadas no controle cognitivo (pensamento, reflexão, perseverança) e nos gânglios da base (relacionadas mais às regiões afetivas e emoções), o que modifica a forma como o jovem toma uma decisão.

Sabe-se, hoje, que há forte associação entre mudanças estruturais e funcionais no cérebro e comportamentos, tais como aumento da procura de sensações, busca de status e prestígio entre os amigos além dos já conhecidos interesses sexuais e românticos. Para os cientistas trata-se de oportunidade única de realizar um ciclo virtuoso onde a maturação cerebral permite o aprendizado/conhecimento e este por sua vez favorece as mudanças cerebrais. Esta história tem tudo para agradar 1/6 da atual população mundial, os próprios adolescentes. Cabe avaliar o que pensam os educadores e pais desta nova proposta. Lá em casa eu fico imaginando que trocarei 2 adultos que podem pagar as contas por 2 adolescentes que vão continuar recebendo uma mesada.

(Sawye et al.  The age of adolescence. Lancet Child Adolesc Health 2018; Dahl et al. Importance of investing in adolescence from a developmental science perspective. Nature, 554:441-50, 2018)


10% das brasileiras que usam pílula apresentam uma contraindicação para uso
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Resultado de imagem para pilula

Você acha correto o uso de métodos contraceptivos sem prescrição médica? Clique aqui para votar

No Brasil, 70% das mulheres em idade reprodutiva utilizam algum método contraceptivo. Os anticoncepcionais orais (ACO) e a esterilização feminina são os métodos mais comuns. Os ACO, quando utilizados correta e continuamente, são seguros e eficazes. Além disso, eles regularizam o ciclo menstrual e contribuem na prevenção de alguns tipos de câncer. No entanto, o uso dos métodos hormonais é restrito as mulheres sem contraindicações. A lista de contraindicações inclui diabetes mellitus com doença vascular, tabagismo em mulheres com 35 anos ou mais, doenças cardiovasculares, tromboembolismo, enxaqueca com aura, e hipertensão arterial, dentre outros. Usar ACO na presença de hipertensão arterial pode aumentar o risco de acidente vascular encefálico e infarto agudo do miocárdio. Uma forma de adquirir ou iniciar o uso de ACO no Brasil é por meio de consulta com profissional de saúde nos serviços públicos ou privados de saúde. Mas é possível também adquirir o medicamento na farmácia sem a apresentação de prescrição médica.

Quanto ao uso correto, um estudo nacional conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais procurou avaliar a prevalência de contraindicação ao uso de anticoncepcionais orais em mulheres brasileiras. Os autores da publicação usaram dados do Vigitel, pesquisa de base nacional, que entrevistou 54.353 indivíduos em 2008, dos quais 32.918 eram mulheres. As 21.074 com idade reprodutiva (15 a 49 anos) foram incluídas na análise. Os dados mais importantes mostram que na população total, 21,0% das mulheres apresentaram alguma contraindicação ao uso de ACO. Mas apesar disso parte desta mulheres (11.7%) estavam usando ACO. Entre as usuárias de ACO, 10,5% apresentaram uma contraindicação e 1,2% duas condições de contraindicação. As contraindicações mais frequentes foram a HAS (15,1%) e tabagismo em mulheres com idade igual ou maior a 35 anos (2,6%). Outro resultado preocupante é a associação entre menor escolaridade e idade acima de 35 anos com uso contraindicado de ACO. O acesso à informação pode explicar parcialmente estas associações: mulheres mais escolarizadas e no auge da vida reprodutiva podem ter sido melhor orientadas quanto aos diferentes métodos contraceptivos, seus vantagens e riscos.

A pesquisa é útil para o para o planejamento e adequação das políticas públicas, além do direcionamento mais adequado do acesso e da utilização pela população dos métodos contraceptivos. Mas serve de alerta para as mulheres que optam por usar uma pílula quando deveriam usar outro método. Se a gravidez planejada é importante na vida da mulher, mais importante ainda é manutenção da saúde.

(Corrêa DAS, Felisbino-Mendes MS, Mendes MS, Malta DC, Velasquez-Melendez G. Fatores associados ao uso contraindicado de contraceptivos orais no Brasil. Rev Saude Publica. 2017;51:1)


Atividade física pode reduzir câncer de mama em até 12%
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Resultado de imagem para women's health physical activity

 

Com qual frequência você se exercita ? Clique aqui para votar

Benefícios da atividade física são bem documentados, o que não impede boa parte da população brasileira de continuar sedentária. Principalmente no caso das mulheres. Dados nacionais estimam que entre 51% das mulheres e 43% dos homens não se exercitam. Um estudo publicado no periódico Cancer Epidemiology pode ajudar as pessoas a modificarem seus comportamentos. A pesquisa feita por pesquisadores do Depto de Medicina Preventiva da FMUSP, Harvard, Cambridge e Queensland avaliou o impacto da atividade física sobre o surgimento de diferentes tipos de câncer. Os autores utilizaram dados da prática de atividade física e da incidência de câncer no Brasil e fizeram diferentes estimativas de prevenção de câncer considerando padrões de atividade física. No cenário ideal com atividade física intensa cerca de 12% dos cânceres de mama após a menopausa e 19% dos cânceres de cólon em 2012 poderiam ser potencialmente evitados. Quando a atividade física foi menor como caso da recomendada pela OMS o benefício foi claramente menor. Uma redução de 1,3% dos cânceres de mama e 6% de câncer de cólon teria ocorrido com como 150 min / semana de atividades com intensidade moderada ou 75 min / semana de atividades vigorosas.

Vale lembrar que  o câncer de mama é o mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil, respondendo por cerca de 28% dos casos novos a cada ano. Em 2018, há uma estimativa de aproximadamente 60 mil novos casos. Já no câncer colorretal, a estimativa é de 36 mil novos casos. A explicação está no fato de que a atividade física influencia no controle de peso e no nível de gordura, além de atuar diretamente sobre hormônios e marcadores inflamatórios. Um dado interessante é que esta associação entre atividade física e redução da incidência do câncer pode ser também verdadeira para outros 13 tipos de tumores malignos entre eles da bexiga, endometrial, gastro-esofágica,  ovário, próstata entre outros.

O estilo de vida contemporâneo não contribui muito para o exercício e atividade física, já que falta tempo, dificuldade de mobilidade, indisponibilidade de locais públicos entre outros fatores favorecem o sedentarismo. Mas isso não deve justificar a inatividade. Até porque as pessoas podem até ter preguiça de se exercitar, mas querem viver longamente.

(Rezende et al. Preventable fractions of colon and breast cancers by increasing physical activity in Brazil: perspectives from plausible counterfactual scenarios. Cancer Epidemiology 56 (2018) 38–45


Atividade social é fator de proteção para demência?
Comentários Comente

Alexandre Faisal

 

 

Resultado de imagem para old women playing cards

Você acredita que atividades sociais são benéficas na prevenção da demência ? Clique aqui para votar

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) o número de pessoas com idade superior a 60 anos chegará a 2 bilhões de pessoas até 2050;  isso representará um quinto da população mundial. O Brasil tem agora 208 milhões de habitantes (aumento de 800 mil pessoas em relação a 2017). Nossa população está crescendo menos graças a menor taxa de fecundidade e observamos uma inédita diminuição da relação entre idosos e jovens. Em 2060 (até lá seremos 228 milhões de brasileiros), a porcentagem de idosos irá dobrar atingindo 32% da população, enquanto a porcentagem de jovens até 14 anos cairá dos atuais 21% para 15%. Uma das preocupações acerca deste fenômeno é relacionada ao declínio cognitivo associado ao envelhecimento. A piora cognitiva representa um tremendo fardo para os próprios pacientes, famílias e sociedade. A função cognitiva pode ser influenciada por vários fatores, incluindo idade, gênero, nível educacional e socio-econômico e estado civil.  Encontrar estratégias eficazes para prevenir ou retardar o comprometimento cognitivo é fundamental. Evidências demonstram que a atividade de lazer pode ter um efeito benéfico na preservação da função cognitiva. A atividade social é considerada outra forma de estilo de vida ativo, juntamente com atividades físicas e cognitivas. E diversos estudos mostram que a atividade social é benéfica para vários desfechos de saúde, incluindo estado de saúde física, estado de saúde mental e qualidade de vida. Os indivíduos podem melhorar sua autoestima, competência e obter papéis sociais significativos por meio da participação em atividades sociais .Mais ainda, ao interagir com pares, a pessoa tem ótimo estimulo intelectual, importante protetor da capacidade cognitiva.

Um estudo liderado por pesquisadores do Departamento de Psiquiatria da Guangzhou Medical University procurou explorar a relação entre atividade social e função cognitiva entre idosos chineses residentes em duas grandes cidades do sul da China. No total 557 idosos sem demência com 60 anos ou mais (média de 73 anos) foram recrutados nos centros sociais em Hong Kong e Guangzhou. Um questionário de atividades de lazer foi utilizado para medir a participação da atividade social e a função cognitiva foi examinada usando uma bateria de testes neuropsicológicos. Os resultados mostram que as atividades sociais tiveram relações significativas ainda que modestas  com os escores de alguns testes cognitivos (ex:teste de aprendizagem de lista de palavras). Alguns tipos de atividades sociais se mostraram ainda mais benéficos para a função cognitiva, incluindo assistir a uma aula de interesse, fazer curso, atividade religiosa e canto. No caso da música, é possível que cantar envolva um processo complexo (e positivo) de combinar uma seqüência de palavras e melodias em uma ordem específica. Este tipo de memorização fornece claramente estimulação cognitiva. Quanto as atividades religiosas, elas podem ser úteis para os idosos relaxarem e lidarem com os efeitos da solidão e isolamento que são tão prevalentes nesta fase da vida. O estudo apresenta algumas limitações tais como o desenho transversal e a dificuldade em separar atividade social do estímulo intelectual, importante protetor de declínio cognitivo. Mas reforça alguns achados de estudos prévios que sugerem o benefício das atividades sociais (religiosas, encontros com amigos, ingressos em clubes, encontros com parentes ou colegas de classe, trabalho voluntário e organizações políticas) para evitar a demência.

Futuros estudos devem abordar as diversas dimensões e tipos de atividade social incluindo medidas de quantidade e qualidade. Mas até lá fica a mensagem: vamos entrosando galera.

(Su et al. The relationship of individual social activity and cognitive function of community Chinese elderly: a cross-sectional study.  Neuropsychiatric Disease and Treatment 2018:14 2149–2157)


Taxa de falha de aplicativo para controle da fertilidade é de 1%
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Imagem relacionada

Você confia(ria) num aplicativo para controle dos dias férteis ? Clique aqui para votar

Usar método contraceptivo é fundamental como todas mulheres sabem. Nenhuma delas que aumentar as estatísticas de gestação não planejada que atingem 60% em diversas populações e países do mundo, incluindo o Brasil. Por outro lado, muitas mulheres querem optar por métodos mais naturais, mas lamentam o fato deles não serem eficazes. Assim a opção por abstinência nos dias férteis, a famosa ''tabelinha'', fica muito limitada. Mas este cenário tem tudo para mudar já que novas tecnologias estão sendo utilizadas para alegria das mulheres. Principalmente as mulheres conectadas. Um novo aplicativo para controle da fertilidade, denominado Natural Cycles, aprovado pelo FDA, e desenvolvido por empresa Suíça, com sede atual em Estocolmo, é a sensação do momento. O aplicativo cria algoritmo exclusivo que leva em conta a temperatura corporal da mulher, além de outros fatores, como a sobrevivência do esperma, as irregularidades do ciclo menstrual. Ele não só detecta a ovulação e as diferentes fases do seu ciclo, como também calcula previsões precisas para os próximos ciclos.E pelo jeito funciona.

Um estudo patrocinado pela empresa e com participação de pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia e Princeton, nos Estados Unidos avaliou, prospectivamente, mais de 22.785 mulheres e 224.563 ciclos menstruais, no que é considerado o maior estudo prospectivo sobre contracepção natural. As mulheres tinha em média 29 anos de idade. Os resultados mostram que a taxa de eficácia resultante para o uso perfeito é de 99% e para o uso típico é de 93%. A falha no uso perfeito ocorre pela falha do método (permitir relação em dia fértil) ou uso incorreto de outro método (com por exemplo, camisinha) num dia fértil. A falha no uso típico decorre de todas causas possíveis incluindo ter relação num dia permitido. Os resultados são excelentes quando comparados com aqueles obtidos com métodos comprovadamente eficazes, como por exemplo os métodos hormonais tipo pílula, injetável hormonal e anel vaginal. O custo do aplicativo é relativamente baixo: 50 dólares anuais, o que dá direito a um termômetro top de linha.

Antes que as mulheres decidam mudar de método, vale destacar duas advertências dos próprios criadores do aplicativo: os ciclos irregulares e a mensuração correta da temperatura que pode estar alterada diante de estado gripal. Como se vê nem tudo é perfeito, e imagino que poucas mulheres ficarão confortáveis ao explicarem um gestação não planejada como resultado de uma gripe.

(Scherwitzl et al. Perfect-use and typical-use Pearl Index of a contraceptive mobile app. Contraception 96 (2017) 420–425)


Déficit de atenção/hiperatividade afeta homens e mulheres
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Resultado de imagem para attention deficit disorder

Você sabe o que é o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ? Clique aqui para votar

O transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento heterogêneo caracterizado por desatenção, hiperatividade e impulsividade, com início na infância e que pode persistir até a idade adulta. O TDAH afeta a vida profissional e social dos pacientes, incluindo maior risco de desemprego e maior uso de serviços de saúde. Pessoas com este transtorno têm maior risco de acidentes nos meios de locomoção, criminalidade, tabagismo e uso de álcool e drogas ilícitas. O TDAH coexiste com outros transtornos psiquiátricos e problemas sociais. Curiosamente, o problema tem sido mais estudado em crianças do que adultos. Pois bem, um estudo sueco procurou estimar a ocorrência de TDAH em adultos ao longo do tempo, bem como avaliar co-morbidades e uso de tratamento farmacológico. Foram usados dados de dois bancos populacionais que cobriram o período de 2006 a 2011.

Vamos aos resultados. A prevalência anual de TDAH diagnosticada  para total de 44.364 pessoas aumentou de 0,58 por 1.000 pessoas, em 2006, para 3,54 por 1.000 pessoas, em 2011. Estudos indicam que o cenário mundial é ainda pior: a prevalência mundial de TDAH em adultos é estimada entre 2% e 5% Ainda no estudo sueco, mais da metade dos pacientes apresentava co-morbidades psiquiátricas (principalmente ansiedade e depressão) e para um terço foi prescrito mais de um medicamento. Não houve diferenças na prevalência em função do sexo masculino ou feminino.

Os resultados podem ser duas interpretações. Se por um lado houve crescimento do número de casos novos de TDAH, por outro houve também maior proporção de pacientes tratados. Estudos realizados nos EUA indicam que apenas 20% dos pacientes com TDHA são diagnosticados e uma porção menor recebe tratamento medicamentoso. Cabe discutir se este tipo de tratamento tem dado conta de ajudar integralmente os portadores do transtorno. Se isso é um problema na Suécia imagine no resto do mundo.

(Polyzoi et al.  Estimated prevalence and incidence of diagnosed ADHD and health care utilization in adults in Sweden – a longitudinal population-based register study.  Neuropsychiatric Disease and Treatment, 2018)


Desrespeito ou abuso afeta 18% das mulheres no momento do parto
Comentários Comente

Alexandre Faisal

 

Resultado de imagem para obstetric violence

Você conhece casos de mulheres que se sentiram abusadas ou desrespeitadas no momento do parto? Clique aqui para votar

O parto é momento único e especial na vida da mulher, e do casal. No Brasil ocorreram algumas mudanças importantes em relação ao acesso à saúde reprodutiva e serviços de saúde infantil nas últimas décadas. Alguns índices como ter feito pelo menos uma consulta de pré-natal e ter parto hospitalar estão próximos de 100% mo pais como um todo. Infelizmente, existem diferenças regionais na qualidade do atendimento e o problema do desrespeito e abuso durante o trabalho de parto persiste. Diga-se de passagem, o problema ocorre em diversos países e incluem várias formas de maus-tratos, tais como abuso físico, psicológico ou verbal, humilhação, discriminação, negação de cuidados e implementação de procedimentos contraindicados ou impróprios.

Um estudo de base populacional conduzido por pesquisadores da Universidade de Pelotas procuraram estimar a freqüência e os fatores associados ao desrespeito e abuso durante o trabalho de parto na cidade de Pelotas no ano de 2015. Informações relacionadas ao desrespeito e abuso durante o parto foram obtidas por meio de entrevista domiciliar realizada 3 meses após o parto. Elas incluíram informações sobre abuso verbal e físico, negação de cuidados e procedimentos invasivos e/ou inapropriados. 4087 mulheres responderam as perguntas. Quanto aos resultados mais relevantes, aproximadamente 10% das mulheres relataram ter sofrido abuso verbal, 6% relataram de negação de cuidados e 6% referiram procedimentos indesejáveis ou inapropriados. Mais chocante ainda, dentre as participantes, 5% alegam ter sofrido abuso físico. No geral, ter sofrido pelo menos um tipo de desrespeito ou abuso foi relatado por 18,3% das mães e ter sofrido pelo menos dois tipos ocorreu em 5,1% dos casos.

Dentre os fatores associados ao problema, dois fatos se destacam: mulheres atendidas no setor de saúde pública e aquelas cujos partos foram por cesariana após terem passado por trabalho de parto tiveram maior risco, com aproximadamente um aumento de três e duas vezes no risco, respectivamente. Se a explicação para o maior risco de maus tratos na rede pública na comparação com rede privada pode ocorrer em função da falta de pagamento direto da parturiente para o profissional de saúde, é mais difícil explicar a questão do trabalho de parto que resulta numa cesariana e não num parto vaginal. É possível que o profissional de saúde não tenha preparo suficiente para conduzir partos vaginais. Principalmente trabalhos de partos longos, difíceis e que resultam em atos operatórios. Não seria improvável imaginar que este profissional entenda a atitude da paciente num parto deste tipo como rebelde ou desobediente. A cultura da cesariana sem indicação e do excesso de medicalização são aspectos desta autoridade médica, que não deve ser questionada, na assistência ao parto.

Os autores enfatizam que este tipo de problema, por mais anacrônico que seja, não tem solução fácil. Para erradicar este problema eles defendem que é essencial implementar políticas e ações específicas para este tipo de violência e formular leis para promover a igualdade de direitos entre mulheres e homens. Isso significa direitos econômicos das mulheres e acesso ao emprego e à educação. Acho que a grande maioria das pessoas concorda. Porque, de fato, não é justo que num momento de tamanha vulnerabilidade, como é o caso do parto, a mulher seja ameaçada e constrangida exatamente por quem deveria protegê-la.

(Mesenburg et al. Disrespect and abuse of women during the process of childbirth in the 2015 Pelotas birth cohort. Reproductive Health (2018) 15:54)


Reposição hormonal oral aumenta risco de tromboembolismo em até 190%
Comentários Comente

Alexandre Faisal

Resultado de imagem para hormone replacement therapy

Você usa(ria) a reposição hormonal para tratamento das queixas do climatério? Clique aqui para votar

A terapia hormonal (TH) é o tratamento mais eficaz para aliviar sintomas climatéricos, que afetam até 75% das mulheres na menopausa. No entanto, os resultados de um grande estudo publicado em 2002,  o Women's Health Initiative (WHI), levantaram preocupações sobre o risco de doença cardiovascular e tromboembolismo venoso (TEV) nas mulheres que usavam uma combinação de hormônios estrógeno e progesterona. Desde então estudos diversos tem apresentado dados conflitantes quanto ao risco de diferentes formulações de reposição hormonal.  No geral há indicações de que a via transdérmica é mais segura do que a via oral. Pois bem, a dúvida está um pouco mais distante já que pesquisadores brasileiros do  Hospital de Clínicas de Porto Alegre realizaram meta-análise com 22 estudos afins. A publicação teve como objetivo investigar o risco de eventos tromboembólicos em mulheres, na pós-menopausa, usando estrogênio não oral em comparação com mulheres que usam estrogênio oral, bem como com mulheres que receberam placebo ou não eram usuários de terapia hormonal. Adicionalmente eles avaliaram o impacto trombótico do uso do estrogênio, isolado ou associado à progesterona. Importante, mulheres que já haviam tido um episódio de tromboembolismo prévio ao tratamento hormonal foram excluídas.

O resultado mais importantes mostra que houve aumento do risco de TEV apenas nas usuárias de TH oral, independentemente do estrogênio ter ser administrado na forma isolada ou associado com a progesterona. O aumento do risco variou entre 47 e 190%. A boa notícia é que a reposição hormonal não se associou com a via transdérmica. Ou seja, mulheres que usaram TH transdérmica apresentaram risco similar de eventos de TEV em comparação a não usuárias de TH.   O impacto negativo da TH oral pode estar relacionado ao aumento dos níveis de triglicérides, diminuição do tamanho das partículas de lipoproteínas de baixa densidade, a produção de alguns fatores de coagulação e proteína C-reativa. Os autores destacam algumas limitações da publicação incluindo a falta de controle de fatores de risco para TEV tais como tabagismo, a idade e obesidade, nos poucos estudos incluídos.

Assim eles recomendam prudência com os resultados que tem óbvias implicações para a prática clínica. Cabe também mencionar que TEV ocorre em cerca de  1 pessoa a cada 1000 indivíduos na população geral e não é assim um evento tão comum. Mas claro que riscos adicionais decorrentes do uso de reposição hormonal precisam ser elucidados. As mulheres sintomáticas menopausadas vivem com frequência este dilema entre repôr ou não hormônios, que no fundo é um delicado equilíbrio entre riscos e benefícios. Muitas consideram que, mais do que usar hormônios, viver é também perigoso.

(Rovinski et al. Risk of venous thromboembolism events in postmenopausal women using oral versus non-oral hormone therapy: A systematic review and meta-analysis. Thrombosis Research 168 (2018) 83–95)