Blog do Dr. Alexandre Faisal

Desrespeito ou abuso afeta 18% das mulheres no momento do parto

Alexandre Faisal

 

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O parto é momento único e especial na vida da mulher, e do casal. No Brasil ocorreram algumas mudanças importantes em relação ao acesso à saúde reprodutiva e serviços de saúde infantil nas últimas décadas. Alguns índices como ter feito pelo menos uma consulta de pré-natal e ter parto hospitalar estão próximos de 100% mo pais como um todo. Infelizmente, existem diferenças regionais na qualidade do atendimento e o problema do desrespeito e abuso durante o trabalho de parto persiste. Diga-se de passagem, o problema ocorre em diversos países e incluem várias formas de maus-tratos, tais como abuso físico, psicológico ou verbal, humilhação, discriminação, negação de cuidados e implementação de procedimentos contraindicados ou impróprios.

Um estudo de base populacional conduzido por pesquisadores da Universidade de Pelotas procuraram estimar a freqüência e os fatores associados ao desrespeito e abuso durante o trabalho de parto na cidade de Pelotas no ano de 2015. Informações relacionadas ao desrespeito e abuso durante o parto foram obtidas por meio de entrevista domiciliar realizada 3 meses após o parto. Elas incluíram informações sobre abuso verbal e físico, negação de cuidados e procedimentos invasivos e/ou inapropriados. 4087 mulheres responderam as perguntas. Quanto aos resultados mais relevantes, aproximadamente 10% das mulheres relataram ter sofrido abuso verbal, 6% relataram de negação de cuidados e 6% referiram procedimentos indesejáveis ou inapropriados. Mais chocante ainda, dentre as participantes, 5% alegam ter sofrido abuso físico. No geral, ter sofrido pelo menos um tipo de desrespeito ou abuso foi relatado por 18,3% das mães e ter sofrido pelo menos dois tipos ocorreu em 5,1% dos casos.

Dentre os fatores associados ao problema, dois fatos se destacam: mulheres atendidas no setor de saúde pública e aquelas cujos partos foram por cesariana após terem passado por trabalho de parto tiveram maior risco, com aproximadamente um aumento de três e duas vezes no risco, respectivamente. Se a explicação para o maior risco de maus tratos na rede pública na comparação com rede privada pode ocorrer em função da falta de pagamento direto da parturiente para o profissional de saúde, é mais difícil explicar a questão do trabalho de parto que resulta numa cesariana e não num parto vaginal. É possível que o profissional de saúde não tenha preparo suficiente para conduzir partos vaginais. Principalmente trabalhos de partos longos, difíceis e que resultam em atos operatórios. Não seria improvável imaginar que este profissional entenda a atitude da paciente num parto deste tipo como rebelde ou desobediente. A cultura da cesariana sem indicação e do excesso de medicalização são aspectos desta autoridade médica, que não deve ser questionada, na assistência ao parto.

Os autores enfatizam que este tipo de problema, por mais anacrônico que seja, não tem solução fácil. Para erradicar este problema eles defendem que é essencial implementar políticas e ações específicas para este tipo de violência e formular leis para promover a igualdade de direitos entre mulheres e homens. Isso significa direitos econômicos das mulheres e acesso ao emprego e à educação. Acho que a grande maioria das pessoas concorda. Porque, de fato, não é justo que num momento de tamanha vulnerabilidade, como é o caso do parto, a mulher seja ameaçada e constrangida exatamente por quem deveria protegê-la.

(Mesenburg et al. Disrespect and abuse of women during the process of childbirth in the 2015 Pelotas birth cohort. Reproductive Health (2018) 15:54)