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Blog do Dr. Alexandre Faisal

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Arrependimento com preservação de óvulos não é incomum

Alexandre Faisal

2020-11-20T18:15:35

20/11/2018 15h35

Resultado de imagem para oocyte preservation

Em 2012, a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva deixou de considerar o congelamento de ovos como um procedimento "experimental" para mulheres inférteis ou mulheres diagnosticadas com câncer. No entanto, ela deixou claro que a comercialização dessa tecnologia com o propósito de adiar a gravidez poderia dar falsas esperanças às mulheres, encorajando-as a adiar a gravidez. O que se observou recentemente foi um aumento do uso da técnica por mulheres sem problemas de infertilidade que buscam a preservação da fertilidade por indicações sociais: falta de parceiro, objetivos acadêmicos ou profissionais, etc. Um interessante estudo realizado na University of California  de São Francisco com 201 mulheres que tiveram seus oócitos removidos cirurgicamente e congelados no período de 2012 até 2016 procurou avaliar se havia algum indício de arrependimento.  Todas participantes haviam sido submetidas ao procedimento porque optaram por atrasar a gravidez e não por infertilidade ou diagnóstico de câncer. O questionário aplicado avaliou também questões como suporte recebido da equipe, percepção do uso do oócitos e perspectivas sobre maternidade. Elas tinham idades entre 27 e 44 anos, sendo 80% graduadas e com salários superiores a US 100 mil dólares ao anos.

Os resultados surpreendem. A grande maioria, ou 89%, das 201 mulheres que responderam à pesquisa disseram estar contentes com o procedimento que permitia maior controle de suas vidas reprodutivas, ainda que nunca viessem a usá-los. No entanto, 49% revelaram algum pesar pela decisão de se submeter ao procedimento. Destas, cerca de dois terços relataram arrependimento leve e o restante relatou arrependimento moderado a grave. A pesquisa infelizmente não esclarece porquê. Mas entre as possibilidades estão a questão do suporte emocional e das expectativas pouco realistas. Por exemplo,  13 das mulheres, com idades entre 34 e 40 anos, estimaram a probabilidade de ter um bebê com seus ovos congelados em  100%,  uma estimativa altamente inflacionada.  O fato é que não há dúvidas sobre a eficácia do congelamento de ovos em mulheres saudáveis. Segundo estudos ela  varia de cerca de 9% a 24%. Mas nem todas mulheres entendem isso ou recebem a informação adequada.  Outros fatores associados ao arrependimento foram o menor número de óvulos criopreservados,  a baixa expectativa de sucesso do procedimento com a obtenção de gravidez futura e a percepção da inadequação de apoio emocional durante o processo de congelamento.

A conclusão da pesquisa é que é preciso melhorar a qualidade das informações e suporte emocional para as mulheres que se submetem ao congelamento de óvulos. Isso ajudaria a minimizar o arrependimento.  Mas convenhamos são recomendações que servem para todas as mulheres e homens que precisam de assistência médica.

(Greenwood et al. To freeze or not to freeze: decision regret and satisfaction following elective oocyte cryopreservation. Fertility and Sterility Vol. 109, No. 6, June 2018)

Sobre o Autor

Alexandre Faisal é ginecologista-obstetra, pós-doutor pela USP e pesquisador científico do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP. Formado em Psicossomática, pelo Instituto Sedes Sapientiae, publicou o livro "Ginecologia Psicossomática" e é co-autor do livro "Segredos de Mulher: diálogos entre um ginecologista e um psicanalista”. Atualmente é colunista da Rádio USP (FM 93.7) e da Rádio Bandeirantes (FM 90.9). Já realizou diversas palestras médicas no país e no exterior. Apresenta palestras culturais e sobre saúde em empresas e eventos.

Sobre o Blog

Acompanhe os boletins do "Saúde feminina: um jeito diferente de entender a mulher" que discutem os assuntos que interessam as mulheres e seus parceiros. Uma abordagem didática e descontraída das mais recentes pesquisas nacionais e internacionais sobre temas como gravidez, métodos anticoncepcionais, sexualidade, saúde mental, menopausa, adolescência, atividades físicas, dieta, relacionamento conjugal, etc. Aproveite.